Santa Maria, Mãe da Igreja

Em conformidade ao decreto “della Congregazione per il Culto Divino e la Disciplina dei Sacramenti sulla“, onde Papa Francisco institui a segunda-feira depois de Pentecostes, como memória de Maria “Mãe da Igreja” no calendário litúrgico, a Paróquia Nossa Senhora Rainha celebrou na noite desta segunda, dia 21, uma Santa Missa em memória da Bem Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja. Pe. Alexandre Fernandes, pároco da NSRainha presidiu a celebração.

 

Abaixo oferecemos alguns textos para meditar sobre essa festa litúrgica:

 

A história do mosaico de Maria, Mater Ecclesiae

Um dos elementos arquitetônicos mais recentes na praça de São Pedro é o mosaico dedicado a Maria “Mater Ecclesiae”, com o texto Totus Tuus, mais uma demonstração do carinho de São João Paulo II a Nossa Senhora.

 

Considerações do Papa Francisco

Gostaria de contemplar Maria como imagem e modelo da Igreja. E faço-o, retomando uma expressão do Concílio Vaticano II. Lê-se na Constituição Lumen gentium: “A Mãe de Deus é o modelo e a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo, como já ensinava santo Ambrósio” (n. 63).

Comecemos a partir do primeiro aspecto: Maria, como modelo de fé. Em que sentido Maria representa um modelo para a fé da Igreja? Pensemos em quem era a Virgem Maria: uma jovem judia que, com todo o seu coração, esperava a redenção do seu povo. Mas naquele coração de jovem filha de Israel havia um segredo que Ela mesma ainda não conhecia: no desígnio de amor de Deus, estava destinada a tornar-se a Mãe do Redentor. Na Anunciação, o Mensageiro de Deus chama-lhe “cheia de graça”, revelando-se este desígnio. Maria responde “sim” e, a partir daquele momento, a fé de Maria recebe uma luz nova: concentra-se em Jesus, o Filho de Deus que dela recebeu a carne e em quem se realizam as promessas de toda a história da salvação. A fé de Maria é o cumprimento da fé de Israel, pois nela está concentrado precisamente todo o caminho, toda a estrada daquele povo que esperava a redenção, e neste sentido Ela é o modelo da fé da Igreja, que tem como centro Cristo, encarnação do amor infinito de Deus.

Como Maria viveu esta fé? Viveu-a na simplicidade dos numerosos trabalhos e preocupações de todas as mães, como prover à comida, à roupa, aos afazeres de casa… Precisamente esta existência normal de Senhora foi o terreno onde se desenvolveram uma relação singular e um diálogo profundo entre Ela e Deus, entre Ela e o seu Filho. O “sim” de Maria, já perfeito desde o início, cresceu até à hora da Cruz. Ali a sua maternidade dilatou-se, abarcando cada um de nós, a nossa vida, para nos orientar rumo ao seu Filho. Maria viveu sempre imersa no mistério do Deus que se fez homem, como primeira e perfeita discípula, meditando tudo no seu coração, à luz do Espírito Santo, para compreender e pôr em prática toda a vontade de Deus.

Podemos interrogar-nos: deixamo-nos iluminar pela fé de Maria, que é nossa Mãe? Ou pensamos que Ela está distante, que é demasiado diferente de nós? Nos momentos de dificuldade, de provação, de obscuridade, olhamos para Ela como modelo de confiança em Deus que deseja, sempre e somente, o nosso bem? Pensemos nisto, talvez nos faça bem voltar a encontrar Maria como modelo e figura da Igreja nesta fé que Ela tinha!

Venhamos ao segundo aspecto: Maria, modelo de caridade. De que modo Maria é para a Igreja exemplo vivo de amor? Pensemos na sua disponibilidade em relação à sua prima Isabel. Visitando-a, a Virgem Maria não lhe levou apenas uma ajuda material — também isto — mas levou-lhe Jesus, que já vivia no seu ventre. Levar Jesus àquela casa significava levar o júbilo, a alegria completa. Isabel e Zacarias estavam felizes com a gravidez, que parecia impossível na sua idade, mas é a jovem Maria que lhes leva a alegria plena, aquela que vem de Jesus e do Espírito Santo e que se manifesta na caridade gratuita, na partilha, no ajudar-se, no compreender-se.

Nossa Senhora quer trazer também a nós, a todos nós, a dádiva grandiosa que é Jesus; e com Ele traz-nos o seu amor, a sua paz e a sua alegria. Assim a Igreja é como Maria: a Igreja não é uma loja, nem uma agência humanitária; a Igreja não é uma ONG, mas é enviada a levar a todos Cristo e o seu Evangelho; ela não leva a si mesma — seja ela pequena, grande, forte, ou frágil, a Igreja leva Jesus e deve ser como Maria, quando foi visitar Isabel. O que lhe levava Maria? Jesus. A Igreja leva Jesus: este é o centro da Igreja, levar Jesus! Se, por hipótese, uma vez acontecesse que a Igreja não levasse Jesus, ela seria uma Igreja morta! A Igreja deve levar a caridade de Jesus, o amor de Jesus, a caridade de Jesus.

Falamos de Maria, de Jesus. E nós? Nós que somos a Igreja? Qual é o amor que levamos aos outros? É o amor de Jesus que compartilha, perdoa e acompanha, ou é um amor diluído, como se dilui o vinho que parece água? É um amor forte ou frágil, a ponto de seguir as simpatias, procurar a retribuição, um amor interesseiro?

Outra pergunta: Jesus gosta do amor interesseiro? Não, não gosta, porque o amor deve ser gratuito, como o seu. Como são as relações nas nossas paróquias, nas nossas comunidades? Tratamo-nos como irmãos e irmãs? Ou julgamo-nos, falamos mal uns dos outros, cuidamos cada um dos próprios “interesses”, ou prestamos atenção uns dos outros? São perguntas de caridade!

E, brevemente, um último aspecto: Maria, modelo de união com Cristo. A vida da Virgem Santa foi a existência de uma mulher do seu povo: Maria rezava, trabalhava, ia à sinagoga… Mas cada gesto era realizado sempre em união perfeita com Jesus. Esta união alcança o seu apogeu no Calvário: aqui Maria une-se ao Filho no martírio do coração e na oferenda da sua vida ao Pai, para a salvação da humanidade. Nossa Senhora fez seu o sofrimento do Filho, aceitando com Ele a vontade do Pai naquela obediência fecunda, que confere a vitória genuína sobre o mal e a morte.

É muito bonita esta realidade que Maria nos ensina: estarmos sempre unidos a Jesus. Podemos perguntar: recordamo-nos de Jesus só quando algo não funciona e temos necessidades, ou a nossa relação é constante, uma amizade profunda, mesmo quanto se trata de segui-lo pelo caminho da cruz?

Peçamos ao Senhor que nos conceda a sua graça, a sua força, a fim de que na nossa vida e na existência de cada comunidade eclesial se reflita o modelo de Maria, Mãe da Igreja (Audiência, 23 de outubro de 2013).


Textos de São Josemaria Escrivá

* É necessário meditarmos com frequência, para não corrermos o risco de o esquecer, que a Igreja é um mistério grande e profundo. Nunca poderá ser abarcado nesta terra. Se a razão tentasse explicá-lo por si só, apenas veria uma reunião de pessoas que cumprem certos preceitos e pensam de forma parecida. Mas isso não seria a Igreja.

Na Santa Igreja, nós, os católicos encontramos a nossa fé, as normas de conduta, a oração, o sentido da fraternidade, e a comunhão com todos os irmãos que já desapareceram e que se purificam no Purgatório – Igreja padecente – ou que já gozam da visão beatífica – Igreja triunfante – amando eternamente o Deus, três vezes Santo. Por isso a Igreja permanece aqui e, ao mesmo tempo, transcende a História. A Igreja, que nasceu sob o manto de Santa Maria, continua a louvá-la como Mãe na terra e no céu (“O fim sobrenatural da Igreja”, em Amar a Igreja, pp. 50-51).

* “Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: ‘Mulher, eis aí teu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis aí tua mãe’. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa”. E nós à nossa. Deus nos entrega ela como Mãe de todos os regenerados no Batismo, e convertidos em membros de Cristo: Mãe da Igreja inteira. Ora vós sois o Corpo de Cristo, e cada um pela sua parte, um dos seus membros, escreve São Paulo Aquela que é Mãe do Corpo é Mãe de todos os que se incorporam em Cristo, desde o princípio da vida sobrenatural, que se inicia no Batismo e se robustece com o crescimento dos dons do Espírito Santo. Artigo “A Virgem do Pilar”, publicado em 1976 em Libro de Aragón, pela CAMP de Saragoça, Aragão e Rioja.

* Estou certo de que cada um de nós, ao ver nestes dias como tantos cristãos exprimem de mil formas diferentes o seu carinho pela Virgem Santa Maria, se sentirá também mais dentro da Igreja, mais irmão de todos os seus irmãos. É como uma reunião de família, em que os filhos já adultos, que a vida separou, voltam a encontrar-se junto de sua mãe por ocasião de uma festa. E se uma vez ou outra discutiram entre si e se trataram mal, naquele dia é diferente; naquele dia sentem-se unidos, reconhecem-se todos no afeto comum (É Cristo que passa, 139).

* Levanto neste momento o coração a Deus e peço, por mediação da Virgem Santíssima – que está na Igreja, mas acima da Igreja: entre Cristo e a Igreja, para proteger, para reinar, para ser Mãe dos homens, como o é de Jesus Nosso Senhor -, peço a Deus que nos conceda a todos essa prudência, e especialmente aos que, como nós, metidos na corrente circulatória da sociedade, desejam trabalhar por Ele. Verdadeiramente, convém-nos aprender a ser prudentes (Amigos de Deus, 155).

* Gosto de voltar com a imaginação àqueles anos em que Jesus permaneceu junto de sua Mãe, e que abarcam quase toda a vida de Nosso Senhor neste mundo. Vê-lo pequeno, quando Maria cuida dEle e o beija e o entretém. Vê-lo crescer, diante dos olhos enamorados de sua Mãe e de José, seu pai na terra. Com quanta ternura e com quanta delicadeza Maria e o Santo Patriarca se ocupariam de Jesus durante a sua infância, e, em silêncio, aprenderiam muito e constantemente dEle! As suas almas ir-se-iam amoldando à alma daquele Filho, Homem e Deus. Por isso a Mãe – e, depois dEla, José – conhece como ninguém os sentimentos do Coração de Cristo, e os dois são o melhor caminho – eu afirmaria que o único – para chegar ao Salvador.
Que em cada um de vós, escrevia Santo Ambrósio, esteja a alma de Maria, para louvar o Senhor; que em cada um esteja o espírito de Maria, para se alegrar em Deus. E este Padre da Igreja acrescenta umas considerações que à primeira vista parecem atrevidas, mas que têm um sentido espiritual claro para a vida do cristão: Segundo a carne, uma só é a Mãe de Cristo; segundo a fé, Cristo é fruto de todos nós.
Se nos identificarmos com Maria, se imitarmos as suas virtudes, poderemos conseguir que Cristo nasça, pela graça, na alma de muitos que se identificarão com Ele pela ação do Espírito Santo. Se imitarmos Maria, participaremos de algum modo da sua maternidade espiritual. Em silêncio, como Nossa Senhora; sem que se note, quase sem palavras, com o testemunho íntegro e coerente de uma conduta cristã, com a generosidade de repetir sem cessar um fiat – faça-se – que se renova como algo de íntimo entre nós e Deus.

O muito amor que tinha por Nossa Senhora e a falta de cultura teológica levaram um bom cristão a fazer-me conhecer um episódio que vos vou contar porque – com toda a sua ingenuidade – é compreensível em pessoas de poucas letras.

“Entenda-o – dizia-me – como um desabafo: compreenda a minha tristeza perante certas coisas que se passam nestes tempos. Durante a preparação e o desenvolvimento do atual Concílio, propôs-se incluir o tema da Virgem. Isso mesmo: o tema. É desse jeito que os filhos falam? É essa a fé que os fiéis sempre professaram? Desde quando o amor à Virgem é um tema, sobre o qual se permite entabular uma disputa a propósito da sua conveniência?

“Se há alguma coisa que brigue com o amor, é a mesquinhez. Não me importo de ser muito claro. Se não o fosse – continuava -, acharia que faço uma ofensa à nossa Mãe Santa. Discutiu-se se era ou não oportuno chamar a Maria Mãe da Igreja. Incomoda-me descer a mais pormenores. Mas a Mãe de Deus e, por isso, Mãe de todos os cristãos, não será Mãe da Igreja, que é a reunião dos que foram batizados e renasceram em Cristo, filho de Maria? “Não compreendo – prosseguia – donde nasce a mesquinhez de regatear esse título em louvor a Nossa Senhora. Como é diferente a fé da Igreja! O tema da Virgem. Pretendem por acaso os filhos suscitar o tema do amor à sua mãe? Amam-na e pronto! Amá-la-ão muito, se são bons filhos. Do tema – ou do esquema – falam os estranhos, os que estudam o caso com a frieza do enunciado de um problema”. Até aqui o desabafo reto e piedoso, mas injusto, daquela alma simples e devotíssima.

Continuemos nós agora considerando este mistério da Maternidade divina de Maria, numa oração calada, afirmando do fundo da alma: Virgem, Mãe de Deus! Aquele que os céus não podem conterencerrou-se no teu seio para tomar carne de homem.
Vejamos o que a liturgia nos faz recitar no dia de hoje: Bem-aventuradas as entranhas da Virgem Maria, que acolheram o Filho do Pai eterno. Uma exclamação velha e nova, humana e divina. É dizer ao Senhor, tal como se costuma em alguns lugares, para exaltar uma pessoa: Bendita seja a mãe que te trouxe ao mundo! (Amigos de Deus, 281-283).

Fonte: Opus Dei

Veja também