Piedade da Criação – artigo de dom Walmor Oliveira de Azevedo

Piedade dos dons da Natureza, eis uma expressão que é prece, grito que deve brotar do coração de cada pessoa. Esse clamor deve converter-se em atitudes, pois o Brasil precisa mudar, para que não ocorram mais tragédias humanas e ambientais. Vergonhosos crimes que ameaçam a humanidade e o planeta, a Casa Comum, a exemplo dos que ocorreram em Brumadinho e em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, cidades mineiras.

Na raiz das insanidades que matam florestas e rios, dizimam vidas humanas, está a idolatria do dinheiro. O Papa Francisco adverte: quando o homem torna-se escravo do dinheiro, mata de fome crianças, provoca divisões em famílias, distancia-se do autêntico sentido da vida. Trata tudo e todos como algo descartável. Quando a busca sem limites por dinheiro torna-se o único propósito, passa-se por cima da natureza e do semelhante, que é irmão, desconsiderando a obra de Deus – o Criador.

O Papa Francisco, na Carta Encíclica Laudato Si’ – sobre o cuidado da Casa Comum, orienta a humanidade a estabelecer nova interação com o meio ambiente, cultivando a admiração e o encanto pela natureza.  A relação com o planeta não pode ser mais a do dominador, do consumidor ou de um mero explorador. “Pelo contrário, se nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe, então, de modo espontâneo, brotarão a sobriedade e a solicitude.”

À luz da fé, todos reconheçam o compromisso cristão de não ceder a um modelo econômico “sem rosto”, descompromissado com objetivos verdadeiramente humanos. Piedade dos dons da Criação, seja essa prece um parâmetro que oriente a conduta de cada pessoa, para que não se repitam as tragédias humanas e ambientais, perdas irreparáveis que cobrem de luto todo o povo brasileiro.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

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