ENTREVISTA COM FLAVIANE MONTENEGRO – O que você precisa saber antes do sim

Flaviane Montenegro II

A Paróquia Nossa Senhora Rainha teve o prazer de receber hoje a cantora, compositora, escritora e missionária Flaviane Montenegro. Natural de João Pessoa, na Paraíba, casada com Renato Borges e mãe da pequena Ana Clara, ela também desempenha outro importante papel no mundo cristão: é Juíza do Tribunal Eclesiástico da Igreja Católica. Em entrevista à Pastoral da Comunicação, ela falou um pouco sobre o desafio de julgar processos de nulidade matrimonial diante de um mundo cada vez mais “descartável”; sobre temas importantes, como casamento e vida cristã; e também sobre o seu novo livro, intitulado “O que você precisa saber antes de dizer sim”, escrito em parceria com Tatiana Mesquita e Daniela Mendes.

PASCOM — Hoje as pessoas se casam já pensando na possibilidade de se separarem. Diante disso, como fica a tarefa de analisar um processo de nulidade matrimonial, sabendo que muitas pessoas já se casam já com o pensamento de não ficarem juntas para sempre?
FLAVIANE – Realmente é um desafio para nós cristãos, que temos por objetivo a construção das famílias. É um desafio para a Igreja, que protege a família e o sacramento do matrimônio, que é indissolúvel. Realmente, o contexto social que nós vivemos hoje vai contra todos os princípios cristãos com relação ao matrimônio, à consciência de indissolubilidade. E as pessoas cada vez menos possuem essa consciência do sagrado, do sacramento, de que matrimônio é para sempre, de que a gente deve se preparar realmente para casar, para constituir uma família. Então é um desafio não apenas para quem trabalha com nulidade matrimonial, mas para a Igreja, as dioceses e as paróquias.

PASCOM — O número de processos de nulidade aumentou nos últimos anos?
FLAVIANE – Sim. E eu atribuo isso a dois fatores. O primeiro, como já havia dito, é o nosso próprio contexto social, que traz a cultura do descartável, de que tudo é fácil, da felicidade só para mim e então quando eu não estou mais satisfeito… O segundo é que o ser humano hoje não está mais preparado para enfrentar barreiras em nome de algo maior, de algo superior, sagrado, de uma vida eterna. Então o ser humano desiste mais facilmente das suas coisas, dos seus compromissos. A palavra já não tem mais tanto peso. Então uma parte dos matrimônios que hoje é celebrada de forma nula, vem como uma consequência dessa realidade social. Por outro lado, sob um outro prisma, nós vemos o grande trabalho que alguns movimentos católicos, algumas paróquias estão realizando e devolvendo essa consciência para os fiéis. Então, por exemplo, eu posso citar casos que chegaram às minhas mãos de pessoas que no passado se casaram sem uma consciência maior, não frequentavam a Igreja e nem tinham a intenção de se casar para sempre, e que, depois da separação, passaram a frequentar a Igreja, a ler e meditar a palavra de Deus e chegar a consciência da importância do matrimônio.

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PASCOM — Quando você se depara com um casamento realmente nulo, como é para você esse sentimento de devolver a dignidade a estas pessoas, para que elas possam então voltar à normalidade da vida cristã e pessoal?
FLAVIANE – Eu somente realizo esse trabalho por este amor que eu sinto por esse sentimento. Porque é gratificante você ver que está fazendo diferença na vida das pessoas. Ver que elas estão voltando a ter não apenas dignidade, mas uma liberdade de consciência, de viver a sua fé com tranquilidade, sabendo que está fazendo o que é certo, que está dentro das normas da Igreja. Então, realmente para mim não existe pagamento melhor do que saber que o meu trabalho está sendo útil. Ontem mesmo eu comuniquei um resultado de nulidade para uma pessoa e acho que fiquei mais emocionada do que ela.

PASCOM — Quando uma pessoa não consegue a nulidade no seu processo matrimonial, como a Igreja orienta e acolhe esta pessoa dentro da comunidade cristã, já que ela pode vir a formar um casamento de segunda união?
FLAVIANE – Primeiro, é necessário explicar porque em alguns processos não é concedido a nulidade matrimonial. Tem pessoas que têm uma boa história, mas não conseguem as provas. E às vezes é necessária uma segurança jurídica porque estamos tratando de um sacramento e o matrimônio goza do favor do direito. Ou seja, que, na dúvida, seja mantido o vínculo. Às vezes os juízes não chegam a uma certeza moral com relação à inexistência do matrimônio. E, infelizmente, apesar de ser uma boa história, não é possível conceder a nulidade por falta de provas ou de participação da outra parte. Por outro lado, nem todos os matrimônios são nulos. Em muitos casos, as pessoas se casaram de forma válida, de forma própria, conforme todas as regras do direito. E lá na frente, depois de anos, muitas vezes por falta de regar a plantinha do amor, de empenho das duas partes, aquele casamento veio a fracassar. Para os matrimônios de segunda união, a Igreja tem toda uma orientação de que se deve receber e acolher essas pessoas nas suas dores. Todo mundo tem dor, não é mesmo? E não é também pelo fato da pessoa estar nesta situação que ela vai ser excluída da Igreja. A esperança da vida eterna é para todos, diz o Magistério da Igreja. A Igreja aconselha a gente a buscar a vivência da palavra, a vivência cristã, a vivência comunitária.

PASCOM — Apesar de ainda pequena, sua filha Ana Clara já demonstra vontade de falar em público, cantar ou ser artista?
FLAVIANE – Olha, Ana Clara é uma artista, em todos os sentidos. Ele está com cinco anos e percebo, sem “corujisse de mãe”, que ela não tem vergonha de cantar, de aparecer. Ontem mesmo nós fomos a uma missa com muitas pessoas, cerca de cinco mil pessoas, e, por mais que a gente pedisse a ela para ficar quieta, ela queria participar mais ativamente da celebração, cantando, indo lá na frente. É uma graça!

PASCOM – Para finalizar, o que as pessoas precisam saber antes de dizer sim?
FLAVIANE – Antes de tudo é que o matrimônio é uma decisão que deve ser tomada não apenas por um sentimento, por uma paixão, por algo avassalador. É uma decisão que tem que ser racional porque é uma decisão de vida inteira. O matrimônio é indissolúvel e as pessoas devem pensar mesmo, medir, esperar o tempo da paixão, esperar a paixão passar porque quando a pessoa está muito apaixonada acaba fazendo besteira. Então é preciso pensar mesmo, fazer conta, ver se o orçamento da casa vai dar certo. E também não excluir nenhuma propriedade do matrimônio, que é a indissolubilidade, a abertura aos filhos, a paternidade responsável e a unidade, porque o casal tem que viver um para o outro, tem que estar unido, não deve estar aberto às infidelidades. É possível ser feliz sim, na vida real, em Deus, sem esse romantismo de conto de fadas de que tudo é perfeito.

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