Artigo – “Vorrei mangiarti”

Prof. Antônio de Oliveira
antonioliveira2011@live.com

Exilado na Babilônia, de lá o profeta Ezequiel profetizou ao mesmo tempo em que Jeremias o fazia em Jerusalém. É dele a referência ao “rolo no qual estavam escritos lamentos, suspiros e ais”. Livro que, para quem respeitosamente o comia, tinha o doce sabor de mel. Ambos, Ezequiel e Jeremias, estão entre os profetas de Aleijadinho no adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas.

Na Itália, uma mãe viajava de trem com uma criancinha no colo. Primeiro, aconchegou-a ao peito. Em seguida, ergueu aquele doce fardo e, ante os bracinhos abertos, esfregou a testa na barriguinha daquele milagre de criança. E disse, em voz alta, de maneira que os outros passageiros pudessem ouvir: “Ti vorrei mangiare!…” Gostaria de te comer. Gula, gula absurda. Naturalmente, não passava pela cabeça e pelo coração daquela mãe uma tentação antropofágica. Da mesma maneira como disse “comer” poderia ter dito beijar, “baciare”.

O hino “Panis Angelicus”, letra de Tomás de Aquino, no século XIII, foi escrito para a Festa de Corpus Christi. Vários tenores famosos gravaram esse hino em seus concertos, como Luciano Pavarotti e Andrea Boccelli. Hino eucarístico, em latim, a segunda estrofe pode ser traduzida assim: Oh! Coisa admirável, alimenta-se do Senhor o pobre, o servo e o humilde. “Manducat Dominum pauper, servus et humilis”.

No dia a dia, às vezes a gente se come de raiva. Adão e Eva comeram do fruto proibido. A ferrugem come o ferro. O pau por vezes come num estádio de futebol ou numa manifestação. O folclórico bicho-papão atemoriza as criancinhas. Falar de papo cheio significa falar de barriga cheia. Há pessoas que não perdem a oportunidade de bater um papo, mas nem todo o mundo tem um bom papo. O guloso extrapola no comer. O apressado come cru. Mas bom mesmo é quando se junta a fome com a vontade de comer, quando se juntam dois desejos: o de comer e o de bater apetitosos papos. Por fim, vou deixar de papo furado.

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