Artigo – Uma espécie de velhice – Prof. Antônio de Oliveira

Prof. Antônio de Oliveira
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“Moço: toda saudade é uma espécie de velhice”, sentencia Riobaldo. Saudosismo é exacerbação superlativa de saudade. É tênue a distância entre saudade e saudosismo, e esse nos deixa a ver navios. Ver navios lembra um quadro histórico. Em 4 de agosto de 1578 travou-se a batalha de Alcácer Quibir, no norte de Marrocos. Nela, el-rei Dom Sebastião comandou o exército português, que foi destroçado pelos mouros. Por fim, sentindo tudo perdido, embrenhou-se pelas fileiras inimigas e nunca mais voltou. Ficaram mortos no campo, ou prisioneiros, milhares de portugueses. O povo, triste, naturalmente, criou lendas. O sumiço deu origem à crença chamada sebastianismo, segundo a qual o rei não morrera, encantara-se e, um dia, voltaria. Aguardando a volta de Sua Majestade, os portugueses começaram a frequentar o Alto de Santa Catarina, no cais de Lisboa. Passaram-se dias, anos, séculos. Nada. Por isso, frustrados, ficavam a ver navios. Diz a canção, o tempo passa na janela e só Carolina não vê. As imagens ficam congeladas no tempo que não tem pressa e Fernando Pessoa se põe a versejar: “Esperar por D. Sebastião, / Quer venha ou não!”

Saudade, nostalgia e saudosismo. Três palavras fortes, três sentimentos afins, parecidos, porém distintos. Vocábulos afins porque a significação e a dor de cada um deles têm tudo a ver entre si. Saudade é ter o coração partido entre o presente e o passado; saudosismo é viver o presente no passado; nostalgia é a melancolia produzida no exilado pelas saudades da pátria, da terra natal, do interior. Nostalgia, mais do que isso, é sentir-se exilado de alguém ou de tempos que não voltam mais. É quedar-se horas a fio a ruminar. “Seu mal é comentar o passado.”

Dia 30 de janeiro é o Dia da Saudade. Mas saudade não escolhe dia. Paixão não, mas ô saudade, diz uma canção. Outra diz: Tô com saudade de tu, de passear no teu céu. De como tudo começou e não acabou. Ou será uma espécie de velhice?

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