Artigo – “Quando a arte não imita a vida”

Prof. Antônio de Oliveira
antonioliveira2011@live.com

A arte imita a vida. A arte não imita a vida. Nessa dimensão, da arte que não imita a vida, considere-se o riso. Quem visita igrejas ou museus há de perceber que nenhuma pintura ou escultura, de gente como nós, representa, sorrindo, pessoas famosas nos museus e nos livros de história; ou, nas igrejas, santos de devoção. A arte, nesse caso, contraria o dito: “Um santo triste é um triste santo”. Maria Mutema “sempre de preto, conforme os costumes, mulher que não ria – esse lenho seco”. (G. Rosa)

Culturalmente, parece viger a ideia de que o riso seria uma característica desabonadora dos humanos: “Cuidado”, a advertência é de Ralph Waldo Emerson, “não rias, pois mostrarás todos os teus defeitos”. Diz também o provérbio: Muito riso, pouco siso! Talvez não passe de uma rima, pois o escritor francês François Rabelais: “É melhor escrever sobre riso do que sobre lágrimas, pois o riso é o apanágio do homem”.

Ariano Suassuna, em A Pedra do Reino, comenta o artifício, numa poesia, de se transformar uma arma, mosquetão, noutra arma, rifle, porque a primeira, condizente com a realidade, não cabia na métrica. E conclui dizendo que, na arte, a gente tem que ajeitar um pouco a realidade dura e cruel do mundo, de outra forma não caberia bem nas métricas da poesia. Mais adiante, reforça: “A rima e a Poesia obrigavam a gente a fazer essas mudanças de glória filosófica e beleza litúrgica”.

É bela a literatura de Shakespeare, no entanto ele foi um grande trágico. O poeta é um fingidor que finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente, verseja Fernando Pessoa. O poeta, em pessoa, aborda tipos de emoção e se revela em cada um deles. A história é mais romanceada que documentada. Não se sabe se é isto ou aquilo, se mito ou verdade. Tudo vem carregado de sentimento e emoções: alegria, tristeza, abalo moral, comoção; simpatia, antipatia, raiva, paixão, decepção, incoerência, paradoxo.

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