Artigo – “Inter vivos”

Prof. Antônio de Oliveira
antonioliveira2011@live.com

Um amigo me comunicou a morte de sua esposa, “amada parceira de vida, a metade de uma assim pensada unidade”. Disse ter estado meditando e, sentindo-se reerguido, sabe que a vida, fora e dentro dele, continua. Dentro de nós dormem aqueles que a gente amou e que se foram ou que adormeceram no Senhor, segundo a fé cristã. Nós é que os despertamos. Para os que aqui ainda estamos e para aqueles aos quais a vida lhes parece fluir normalmente, dar-se conta da morte de quem amávamos e continuamos a amar desperta em nós uma imagem viva. Imagem viva de alguém bem próximo. O que, sempre oportunamente, sugere uma reflexão sobre essa espada de Dâmocles permanente e inexoravelmente pendurada sobre a nossa cabeça. A pasta de dente não volta pra dentro do tubo.

“Inter vivos” significa entre vivos, como em doação “inter vivos”, isto é, não por testamento. No caso, aqui e agora, reflexão “inter vivos”, isto é, não por amedrontamento, mas por tomada de consciência. Cedo ou tarde os afluentes se perdem no oceano. A vida de todo mundo está sempre por um fio preso a um contrato de risco: um câncer, um acidente fatal, uma picada letal, “de susto, de bala ou vício”. Um mistério para ser vivido. A qualquer momento o ciclo da vida pode topar com um dique. Agravante: o clima de violência explícita nos faz temer permanentemente pela nossa integridade física. Um problema para ser resolvido.

A princesa e o plebeu, o pobre Lázaro e o rico epulão, seremos todos barrados em certa altura da vida, quiçá manchada de atos mesquinhos. Enquanto digladiamos, entre nós, a vida passa e passamos a fazer parte dos que já viveram. Cidadãos comuns, chefes de estado, rivais ideológicos quando em vida batendo de frente uns com os outros. Guerra de todos contra todos. O ser humano é um lobo para seu irmão. A presença constante da morte deveria servir de alerta para um basta a tanta corrupção, competição desleal e a tantas dissensões, “inter vivos”.

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