A sexualidade humana e a Teologia do Corpo

A pastoral da comunicação da igreja Nossa Senhora Rainha aproveitou um dos intervalos do Seminário de Afetividade, que promoveu na sexta e no sábado no salão paroquial Pedro, para entrevistar o professor e principal palestrante, o americano Evan Lemoine. Natural de Louisiana, ele vive atualmente no México e vem estudando a fundo a Teologia do Corpo, escrita pelo Papa João Paulo II, de quem é um grande admirador. Evan fala sobre questões como banalização da palavra amor, de pureza do corpo e da alma, de castidade, de família, de sexualidade e deixa um recado bem humorado para os jovens brasileiros.
Você poderia explicar para os mais leigos e de uma forma resumida o que é a Teologia do Corpo?
Teologia do Corpo quer dizer basicamente que o corpo humano revela Deus. O beato João Paulo II disse que o corpo é a única coisa capaz de revelar Deus. Que Deus se encarnou. E nós encontramos quem Deus é somente por meio do corpo humano, por meio do corpo humano de Cristo e por meio do nosso próprio corpo. E o nosso corpo revela quem Deus é e que Deus não é sozinho, que Deus é uma trindade, uma comunhão de pessoas, uma comunhão de amor e que Deus nos criou à sua imagem e semelhança para ser uma comunhão de amor. E Deus nos chama para entrarmos num casamento eterno com ele, no Céu.
Você acredita que há atualmente uma banalização da palavra amor?
Definitivamente. A palavra amor vem sendo usada em propagandas de jeans, de roupas etc. Nós usamos a palavra amor para falar de qualquer coisa. Nós dizemos para uma pessoa que a amamos porque ela nos fez um favor, para uma menina que eu acho que seja bonita… Nós falamos de amor como se fosse qualquer coisa que nós queremos que seja. Mas acredito que mesmo assim nós temos um entendimento do verdadeiro amor, do amor autêntico. Quando se fala do verdadeiro amor ocorre um eco no nosso coração, para um amor maior. E é engraçado, porque isso não seria necessário. Porque qualquer amor é verdadeiro. Porque todo amor que não é verdadeiro, não é amor.
Qual seria o papel da família na construção do amor verdadeiro?
A família é a base da sociedade. Se a família vive o amor, então a sociedade vai viver o amor. É como se fosse a célula da sociedade. É como se um corpo tivesse com câncer. Para curá-lo, você precisa começar pela célula. Se a sociedade tiver um câncer de egoísmo, você precisa começar a cura pela célula, pela família. Então, definitivamente, a família nos ensina, ensina às crianças como viver o amor, muito mais do que eles aprendem na escola ou em qualquer outro lugar.
Os pais geralmente têm dificuldade de falar sobre sexo, amor e Deus com os filhos, que acabam bombardeados por informações vindas da internet e de amigos e colegas. Você poderia falar um pouco sobre isso?
Acredito que seja natural essa dificuldade em explicar sexualidade, amor, porque são assuntos muito delicados. Mas são necessários. Acho que eles têm dificuldade em falar sobre essas coisas porque eles não querem abrir os olhos dos seus filhos antes, precocemente. Então, eles não falam nada. Ou eles ficam com medo de falarem coisas erradas, de induzirem os filhos a cometerem erros. Então, eles às vezes tentam reprimi-los, para mantê-los longe desses erros. Mas o que precisa ser realmente ensinado é como viver livremente, livre da escravidão, da escravidão da luxúria. Há um documento muito interessante da Igreja sobre isso, que chama “A sexualidade humana: a verdade e o sentido”, do pontificado do concílio familiar. Trata-se de um documento muito importante, que explica o que é a sexualidade, o que Deus quer dessa sexualidade e como transmitir isso para os nossos filhos, por meio dos nossos exemplos, por meio das nossas palavras, em fases diferentes de suas vidas.
O que significa ser puro no corpo e na alma? Qual é a sua visão da relação corpo e alma?
Pureza não inclui somente o corpo, inclui também a pessoa. Muitas pessoas acham que pureza é apenas não tocar, não fazer. Mas pureza é amar verdadeiramente a sua própria pessoa, procurando o seu próprio bem e da outra pessoa. E ela é expressa pela linguagem do corpo, pela linguagem da voz, dos olhos, das ações, das atitudes, pelos nossos pensamentos… Então, quando nós pensamos em pureza, pensamos na pureza do amor, ou seja, querer realmente o que é melhor para o outro, de uma forma pura, livre do nosso próprio egoísmo. No documento que mencionei (A sexualidade humana: a verdade e o sentido), a castidade é definida como “uma energia espiritual que liberta o amor de todo egoísmo, uso e violência”. Então castidade é realmente o que purifica o amor, o corpo e a alma.
Como construir no nosso dia a dia essa visão positiva da sexualidade humana bela, que está revolucionando a vida de muitos jovens, adultos, casais e pessoas solteiras?
Para aplicar isso no nosso dia a dia, acredito que é preciso que, todos os dias, nós direcionemos a nossa sexualidade, o nosso coração, para o nosso dom de viver para os outros. Num relacionamento matrimonial, é aprender a colocar a outra pessoa em primeiro lugar. Sempre procurar o que é melhor para a outra pessoa. Realmente dizer “você é o centro”. Isso é difícil na vida dos jovens. É preciso aprender a direcionar toda a nossa energia para construir algo para o bem da humanidade, para construir o verdadeiro amor, para construir relações humanas, para fazer o bem para os outros. Isso é importante para evitar aquilo que trata nossa sexualidade como um brinquedo. Precisamos aprender a viver o amor e a nossa sexualidade como um dom de Deus.
Você parece ser um grande admirador do Papa João Paulo II. Poderia falar um pouco sobre ele?
O Papa João Paulo II definia a si mesmo como um apaixonado pelo amor humano. Ele trabalhou, aprendeu e compartilhou essa visão humana do amor por tantos anos. Para mim, ele tinha a visão mais integra e completa do amor humano que eu já vi. Eu nunca encontrei nada como isso em nenhum outro lugar. Nem nos filósofos antigos gregos, nem nos documentos antigos da Igreja, nem nos livros de psicologia etc. Ele nos deu algo que nos permite ir mais fundo para encontrar as respostas que procuramos para essas questões. A sua forma de agir demonstrou que ele não apenas pregou, mas que ele também viveu tudo isso.
Que recado você deixaria para os jovens brasileiros?
Eu amo os jovens brasileiros. Estou muito feliz por estar aqui e por ver que eles querem e buscam o amor maior. Eu posso dizer para todas as mulheres que estão por aí que elas precisam aprender a esperar por um amor que sabe esperar. E para os homens, se eles querem uma princesa, então eles precisam aprender a serem príncipes.   

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