Tempo litúrgico: Quaresma

Mesmo no meio da correria de todos os dias, de todos os anos, de todos os tempos, a quaresma é uma motivação para se aprofundar no sentido do viver cristão, de se pôr em atitude de escuta mais profunda aos apelos do Senhor.

A quaresma não é tempo de melancolia, mas tempo de penitência e reconciliação. Chamados ao perdão, capaz de concedê-lo totalmente assim como Jesus o fez, até mesmo na cruz. Aprendamos com Ele: dar o perdão em nome da lei de Deus para que ele seja apreciado pelo Pai. Perdoar sempre, de coração, 77 vezes 7vezes (Mt 18,21; Lc 17,4).

A quaresma é tempo de dar atenção, não ás aparências e superficialidades, mas ao mais interno de nossas vidas: ao coração: às abstinências, jejuns, esmola e outras práticas comuns de nossa tradição. Jesus deixou boas lições para nós e nos convida a viver de coração aberto; não basta a luz. É preciso a cruz. Somos chamados a entender a lógica da cruz para que a vida caminhe bem.

A quaresma é tempo que nos é concedido para nos despertar para a realidade que vivemos e ser possível reconhecer nela as injustiças sociais e nelas escutar o chamado do Senhor para nele e com ele poder ajudara aos irmãos que nele crê. A quaresma é tempo propício para deixar ressoar em nós o apelo do Papa Francisco que diz: “Vivei a mística do encontro em meio à cultura da indiferença” Para ele, viver a fé é viver a beleza de um encontro. É aprofundar a experiência de comunhão com Jesus, fazendo memória dos mistérios de sua vida, em oração, e se propondo a uma vida de solidariedade com todos aqueles que, no percurso de sua vida, deseja viver com Cristo.

A penitência é um tesouro da espiritualidade crista.

A prática dos atos penitenciais pode ser individual ou privada e podem também ser acompanhados pela comunidade. O importante é a chama de consciência das falhas cometidas e mudança de vida, transformação, ou seja, metanoia. Isto quer dizer que não é apenas uma mudança no comportamento moral, mas ao mesmo tempo, a entrada numa nova realidade. O perdão dos pecados e a comunhão de vida com Cristo são considerados um dom de Deus sem proporções com o esforço do homem. A conversão pode ir caminhando lado a lado com os sinais de tristeza pelos pecados cometidos (Mt 26,75) da mesma forma, a confissão dos pecados: ela permanece no batismo de João (Mt 3,6; Mc 1,5), nas parábolas de Jesus (Lc 15,21; 18,13) e na vida da comunidade cristã (Tg 5,16; 1Jo 1,9).

O Novo Testamento também nos fala de Jejum: Mt 4,2, At 3,2-3 (os primeiros cristãos); Os frutos dignos de arrependimento (Mt 3,8; Lc 3,8, At 25,20) não são ações de penitência, mas um comportamento conforme a atitude interior de conversão. Jesus nos ensina e nos convoca para ajudar ao próximo conforme ele mesmo fez possibilitando-nos a compreensão de que o critério para entrar no Reino de Deus não é o que cada pessoa faz ou deixa de fazer para Deus, mas o que ela faz ou deixa de fazer para as outras pessoas. O importante na prática do jejum e esmolas aos necessitados está subentendido todas as ações direcionadas aos famintos, indefesos e marginalizados. Sem essa consciência, a quaresma pode se tornar infrutífera, um conjunto de ritos vazios, tristes, sem ligação com mistério da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus. Lembra-nos a quaresma que Deus quer conversar ao nosso ouvido, conduzir-nos pela mão, nos oferecer o banquete dos reconciliados. Mas Ele precisa da nossa resposta livre, do nosso amém ao Seu amor oferecido.

Vamos nessa quaresma promover o encontro com Jesus, nesses quarenta dias de deserto: o encontro consigo mesmo, com o outro, com a natureza e com Deus em si e nos outros. Caminhar juntos em favor da vida.

Neuza Silveira de Souza
Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte.

 

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