Quinta Feira, 31/05: Corpo e Sangue de Cristo-Ano B

A celebração da Festa do Corpo e Sangue de Cristo existe desde o século XIII; nasceu ligada ao aprofundamento teológico a respeito da presença de Cristo na Eucaristia. Esta celebração não deve, no entanto, fazer-nos esquecer que cada missa é a festa do Cristo que se dá para nós em verdadeiro alimento e verdadeira bebida.

Textos desta Quinta Feira

1ª leitura: «Este é o sangue da Aliança que o Senhor fez conosco» (Êxodo 24,3-8).

Salmo: 115 (116) – R/ Elevo o cálice da minha salvação, invocando o nome santo do Senhor.

2ª leitura: «O sangue de Cristo purificará a nossa consciência» (Hebreus 9,11-15).

Evangelho: «Isto é o meu corpo… Isto é o meu sangue» (Marcos 14,12-16.22-26).

Deus crucificado por nossa violência
Corpos supliciados, sangue derramado… Este é o espetáculo que a violência humana nos oferece todos os dias. Em escala menor, as agressões que acontecem nas vizinhanças; em escala maior, as guerras. Mas não há somente o homicídio qualificado, há também a consumação hipócrita dos ricos, que extraem sua substância da vida dos pobres, dos mais fracos. “Quando comem seu pão, é o meu povo que devoram” (Salmo 14,4). Diante de tudo isso, vem-nos a questão posta no Salmo 42: “Onde está o teu Deus?”. Pois, se Ele é Todo Poderoso, por que não vem estabelecer a ordem? Porque isto equivaleria a violentar o homem, a forçar-lhe a mão. Se fôssemos homens-robôs, o que significaria o bem que fizéssemos? Em razão de termos o poder de decidir, para o bem ou para o mal, os nossos atos adquirem valor. Mas Deus nos deixa então a sós, diante do nosso mal? Certamente que não! Posto que derramamos o sangue e mutilamos os corpos, veio Deus fazer-se um só com as nossas vítimas. Deus desprezado, Deus rejeitado, Deus explorado! E não podemos dizer: “eu não estou do lado dos algozes”. Desde o primeiro movimento de inveja, de cobiça, de desprezo ou de raiva, estamos deste lado sim. Estamos inscritos no pecado do mundo. E estamos todos aí; a uma só vez, vítimas e carrascos. Cristo veio, então, nos dar a sua carne e o seu sangue.

A última palavra do amor
O amor crucificado não desapareceu por causa disto; mas, ao contrário, deu um novo salto. Paulo diz que ele “superabundou”. O movimento pelo qual Deus vem arrolar-se entre as nossas vítimas é o movimento de um superamor. Mais ainda: Cristo poderia tê-las reunido, esposando a sorte de todos os que morrem de fome ou dos anciãos excluídos. Espantoso: escolheu a sorte dos malfeitores, dos punidos por crimes, dos que, precisamente, participaram do ódio homicida. “Deus o fez pecado”, diz Paulo (2 Coríntios 5,21). E, tomando este lugar, o único justo da história fez-se absolvição dos culpados: com eles, ele se foi. O cúmulo do amor não é o perdão? Inconscientemente, por isso é que o desejamos, nós que, com facilidade, nos consideramos pessoas que não precisam ser perdoadas. Pois, este Cristo, que carrega o nosso pecado, que é a imagem do nosso pecado, a absolvição do nosso pecado, torna-se o alimento para um novo amor, amor para além das mortes que provocamos e sofremos. A cruz é o lugar de uma virada radical: a morte do amor, que deveria levar-nos à perdição, torna-se fonte da qual jorra ainda mais forte uma nova vida. Tudo isso porque o Cristo nos deu a própria vida que lhe queriam tirar: “Tomai, todos, e comei: isto é o meu corpo. Tomai, todos, e bebei: este é o cálice do meu sangue, que será derramado por vós e por todos.” O amor tem a última palavra.

Desde sempre, é Deus o alimento do homem.
Jesus, de certo modo, salva a sua vida, fazendo-a passar aos outros, mesmo se estes outros irão abandoná-lo (“Tomai e comei…”). Dá a sua vida para todo o mundo, até para os seus assassinos. Por isso a confia a eles. A Ressurreição não se limita a isto apenas, pois já estava ali, na Ceia: eis o novo Corpo de Cristo, a assembleia, os “reunidos” para além de toda divisão. Naquele momento, judeus (o sinédrio) e pagãos (Pilatos) já se haviam posto de acordo para o homicídio. Mais tarde, puseram-se novamente de acordo, para confessarem o seu crime (o centurião romano e a multidão dos judeus, de Lucas 23). Em breve, no Pentecostes, todos os povos se unirão para reconhecerem o Filho de Deus. Compartilhando o mesmo pão, que é o corpo, e bebendo do mesmo cálice, que é sangue, podemos fazer calar os nossos litígios, superar as desigualdades, que são fontes de conflitos, e louvar as diferenças, que nos tornam complementares. Os que se recusam a “comer deste pão”, posto que o Corpo de Cristo aboliu todo e qualquer privilégio, reeditam incansavelmente o assassinato pascal, provocando assim a superabundância do amor que, a uma só vez, os desabona e os absolve. Tudo isso é o que significamos cada vez que nos reunimos para a Eucaristia. E anunciamos, além disso, que é Deus mesmo o verdadeiro alimento do homem. “O Cristo confirmou que o cálice que vem da criação era o seu sangue, e que o pão que vem da criação era o seu corpo” (Santo Irineu).
Marcel Domergue

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