Homilia do Dia da Divina Misericórdia

sao tome reduzido

Aterrorizados e com medo de serem detidos, os discípulos se trancaram. Agora, devem passar do medo à fé; itinerário que todos temos de percorrer. Este é o Domingo da Divina Misericórdia: desde 2001, a pedido do Papa João Paulo II, o primeiro domingo depois da Páscoa é consagrado à meditação do mistério da Divina Misericórdia.
Textos deste Domingo
1ª leitura: «Um só coração e uma só alma» (Atos 4,32-35)
Salmo: 117(118) – R/ Dai graças ao Senhor, porque ele é bom; “eterna é a sua misericórdia!”
2ª leitura: «Todo o que nasceu de Deus vence o mundo» (1João 5,1-6)
Evangelho: «Oito dias depois, … Jesus pôs-se no meio deles» (João 20,19-31)
Portas abertas
Estamos no “primeiro dia da semana”, no primeiro dia de uma nova criação, no primeiro dia de um novo mundo. Tudo começa num clima de medo, no interior gelado daquele recinto cuidadosamente trancado. Pedro e João, no entanto, haviam ido já até ao túmulo e constatado que o mesmo estava vazio. Maria Madalena já lhes tinha anunciado ter visto Jesus vivo. Mas não foi suficiente para fazê-los passar do medo à fé. Mantêm-se ainda trancados naquela sala que mais faz pensar num túmulo, isolado do mundo por uma pesada pedra que fora rolada. Assim como havia ultrapassado os umbrais da morte, Jesus faz agora o caminho inverso: vem encontrar seus amigos no recinto da morte no qual ainda estão prisioneiros. Notemos que, no fim do relato (versículo 21), Jesus os «envia», ou seja, faz com que saiam do seu refúgio. Passa-se do fechamento à abertura e, por isso, do medo, mencionado no versículo 19, à fé significada pela paz que Jesus lhes traz (versículo 21). O mundo abre-se para eles. Penso que esta passagem do medo à fé representa um itinerário típico que todos temos de percorrer; não uma vez por todas, mas sem cessar, ao longo de todos os acontecimentos que a vida nos faz atravessar. Não vamos acreditar, no entanto, que devamos nos esfalfar para efetuar esta passagem: para isso é necessário a visita do Cristo. A nossa única tarefa, como sempre, é o acolhimento daquele que atravessa as nossas portas para nos trazer a paz.
O dom do Espírito
O texto que lemos hoje foi chamado de «Pentecostes segundo são João». O esquema, de fato, é idêntico ao de Atos 2,1-11: o dom do Espírito e a partida para o anúncio do Evangelho aos homens de todas as línguas. Por que o dom e o acolhimento do Espírito são necessários para que a Ressurreição do Cristo produzam em nós todos os seus efeitos? Porque, para isso, é preciso que o Cristo deixe de permanecer exterior a nós, «à nossa frente», para se nos tornar interior. É preciso que o seu Espírito venha fazer aliança com o nosso espírito e que, por aí, sejamos recriados (notemos a menção ao sopro divino, como no relato da criação segundo o Gênesis 2,7) à «imagem do Deus invisível», expressão que Paulo emprega para o próprio Cristo, em Colossenses 1,15. Um só e o mesmo Espírito, portanto, para o Cristo e para nós. Por isso é que ele pode enviar também a nós, «assim como o Pai o enviou». Enviados para fazer o quê? Para perdoar os pecados. Ficamos à primeira vista um pouco decepcionados pela aparente exiguidade deste programa. Mas não esqueçamos que é constante nas Escrituras a relação entre o pecado e a morte: chama-se pecado todo comportamento que impede os outros de viverem e que, por consequência, destrói a humanidade em quem o comete e em quem o sofre. Trata-se sempre, portanto, do túmulo aberto, da evasão para fora do domínio da morte. O perdão do pecado, deste pecado que crucifixa o Cristo, é Ressurreição.
E Tomé, neste contexto?
Notemos em primeiro lugar que, fisicamente, não estava ele trancado como os outros, em local fechado. Estaria então livre? Perfeitamente em vida? Não, porque está vivendo sob o regime do «ver para crer». Ora, ver é controlar, apoiar-se numa experiência objetiva. E crer é confiar em quem se dirige até mim. A relação entre quem vê e o que é visto permanece exterior. Já acolher a palavra do outro, ao contrário, consiste em deixá-lo entrar em mim para «me informar», ou seja, dar-me uma forma nova. Nasce daí uma relação verdadeira, que é sempre criadora. Tomé não estava lá, na primeira vez. Permaneceu exterior ao acontecimento da Ressurreição, assim como permaneceu também no exterior da sala onde estavam reunidos os discípulos. Não falemos da «dúvida» de Tomé, pois se trata na realidade de uma recusa a crer (versículo 25). Mas eis que se reproduz a cena do versículo 19: Jesus vai manifestar-se de novo aos seus discípulos que estão trancados em casa, com as portas fechadas. «Oito dias depois»: Tomé teve de remoer sua incredulidade por esse tempo todo, simbólico. Isto quer dizer que não é preciso desesperar, quando nos encontramos incapacitados para crer? Tomé não abandonou, de qualquer forma, a comunidade dos discípulos. Foi unir-se a eles em sua fé, aos que creram porque viram. O relato termina com a promessa da felicidade para aqueles que irão crer sem ter visto; está aí a nossa condição atual.
Marcel Domergue, jesuíta 

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