Domingo, 8 de julho de 2018: 14º Domingo do Tempo Comum – Ano B

Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria? Rejeitado em sua própria terra, por seus conterrâneos, o Senhor sabe compadecer-se das nossas necessidades, das nossas fraquezas e angústias e vem ele mesmo fortalecer-nos com a sua graça. Hoje, somos convidados a ter os olhos e o coração fixos em Jesus, que nos acolhe e nos alimenta com sua Palavra e com a Eucaristia.

Textos deste Domingo

1ª leitura: «São um bando de rebeldes; ficarão sabendo que houve entre eles um profeta!» (Ezequiel 2,2-5)

Salmo: Sl.122(123) R/ Os nossos olhos estão fitos no Senhor; tende piedade, ó Senhor, tende piedade!

2ª leitura: «Gloriar-me-ei das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim» (2 Cor 12,7-10)

Evangelho: «Um profeta só não é estimado em sua pátria» (Marcos 6,1-6).

Este Jesus
A Bíblia joga constantemente com uma troca, entre o universal e o particular. Universal que, a princípio, é o próprio Deus, que é tudo, porque é Um; e o universo que Ele criou, na totalidade das criaturas do espaço-tempo. Já o particular é cada um no meio dos outros, o um «entre» os outros: portanto, é o contrário do «todo». Foi assim que a Aliança com todos os viventes centrou-se num só: Noé. E a aliança com todas as nações, também num só: Abraão, etc. A oposição e o intercâmbio entre «Um» e «todos» estruturam a Bíblia, simplesmente porque estruturam as nossas próprias existências. Pensemos na relação indivíduo-coletividade, por exemplo. No evangelho de hoje, o que cria espanto e admiração, o «escândalo», é a particularidade de que Jesus, situado no tempo e no espaço, seja mesmo assim depositário da Sabedoria (que, na Bíblia, «preenche todo o universo») e do poder sobre todas as coisas (os «grandes milagres»). Pois, este «escândalo» não cessou: muitos não chegaram a compreender que fazemos a nossa vida referir-se a Alguém (ver o que significa este «Alguém») que viveu por trinta e poucos anos, há dois mil anos atrás, num pequeno canto do mundo, bem típico de sua gente e de sua cultura.

«De onde lhe vem tudo isso?»
Temos feito de Cristo uma ideia como de um ser «caído do céu». Nem sempre o que pensamos é que ele era de uma tribo, que tinha uma família e que mantinha, com os membros desta família, diversos tipos de relações de acordo com cada pessoa. Era muito bem situado profissionalmente, tanto que o texto diz ser ele, não «o filho do carpinteiro», mas «o carpinteiro». Só que o que Jesus diz e o que faz não correspondem ao seu estado civil, à sua herança familiar. E, então, seus conterrâneos recuam diante da conclusão: é Deus que, por ele e nele, fala e age. Ora, o que os confunde é este realismo, é a verdade do que chamamos Encarnação. Mais tarde, os discípulos também irão escandalizar-se ao verem Jesus estender ao máximo a verdade do seu pertencimento à humanidade, indo até aos limites mais extremos do sofrimento e da desgraça humana. Aí estará de fato completamente só, «um só» diante de todos os outros, que formam um bloco ; assume, no entanto, sozinho o mal de todos. É quando em verdade se fica sabendo que isto (esta sabedoria e esta potência) lhe vem de Deus.

«E, ali, não pôde fazer milagre algum.»
Pois as pessoas querem reduzi-lo à sua hereditariedade humana, e ofendem-se ao vê-lo fazer coisas que ultraspassam a sua profissão. E ele se conforma ao desejo delas. Pois, como dizia Teresa de Lisieux, temos o Deus que desejamos. Não podemos deixar de pensar naquele outro momento em que Cristo também não fará nenhum milagre; na hora da Cruz, em que a intervenção dos anjos será recusada, em que ele, materialmente, terá as mãos atadas. Deus submete-se à vontade dos homens, mas é nesta mesma fraqueza que se manifestará a onipotência (ver a segunda leitura). Foi de fato preciso que Deus conhecesse a morte, para vencê-la; e para que se revelasse o amor ali mesmo onde reinava o ódio. É claro que há muito de inveja, a raiz do pecado, na atitude dos conterrâneos de Cristo; a mesma inveja que o matará (Mateus 21,38 e 27,18): este Jesus, que é um de nós, porque é capaz de fazer tão mais do que nós? É este o seu ciume.

«Entre os seus.»
Não vos admireis deste retorno à paixão. O «profeta» desprezado em sua própria casa faz pensar no «Veio para o que era seu e os seus não o receberam» (João 1,11) : trata-se aí, exatamente, do combate pascal entre a luz e as trevas. O tema da impotência de Cristo («não pôde fazer milagre algum») é também um tema pascal. Jesus, enfim, será crucificado, porque recusam-se a ver neste homem «particular» o Filho de Deus. A palavra final da história é esta: temos medo do amor, temos medo de que Deus seja amor. Então, atamos-Lhe as mãos para não vermos isto. Mas, por nossa vez, isto não nos convidaria também a amar? Pois justamente quando deixa-se atar as mãos é que Deus manifesta ainda melhor que Ele é amor. Cedeu à derrota, por causa do pecado.
Marcel Domergue, jesuíta

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