29 de julho de 2018: 17º Domingo do Tempo Comum-Ano B

Eliseu e Jesus foram sensíveis às necessidades das multidões que, famintas, os seguiam. Sem deixar de invocar a Deus, ambos também sabiam ganhar a colaboração humana, do homem e do menino que consentem em compartilhar o alimento que traziam, por modesto que ele fosse. Assim, num texto altamente simbólico, João nos conta que, pouco antes da Páscoa, Jesus alimentou com apenas cinco pães de cevada e dois peixes, uma grande multidão.

Textos deste Domingo

1ª leitura: «Comerão e ainda sobrará» (2 Reis 4,42-44).

Salmo: Sl. 144(145) – R/ Saciai os vossos filhos, ó Senhor!

2ª leitura: «Um só Corpo, um só Senhor, uma só fé, um só batismo» (Efésios 4,1-6).

Evangelho: «Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam» (João 6,1-15).

Páscoa, a grande festa dos judeus
Se o evangelista se dá ao trabalho de assinalar a proximidade da Páscoa, é porque quer que leiamos este relato conservando na memória o contexto pascal. Ele imediatamente acrescenta que, levantando os olhos, Jesus viu «que uma grande multidão estava vindo ao seu encontro». Ora, o que caracteriza a celebração pascal é a enorme afluência de pessoas que vão para Jerusalém. Mas aqui parece que a multidão, em vez de dirigir-se a Jerusalém, volta-se para Jesus, que está nas proximidades do lago de Tiberíades, muito longe daquela cidade. Esta impressão se vê reforçada ao lermos que «estavam querendo levá-lo para proclamá-lo rei». Pois, em Israel, quem diz rei, diz filho de Davi, e quem fala em Davi faz pensar em Jerusalém, a cidade que Davi conquistou, fazendo dela a residência real. Há um deslocamento, portanto: o interesse desvia-se da cidade de Jerusalém e se dirige para Jesus. Ele vai se tornar a nova Páscoa. E o discurso que segue, a respeito do pão da vida, não desmente esta interpretação.

«Comprar» o pão
Sem me deter na importância do ato de «comer» nas Escrituras, gostaria de sublinhar neste texto a palavra «comprar», que é reforçada pela menção às duzentas moedas de prata, equivalentes a «um salário de duzentos dias de trabalho». Filipe caiu na armadilha! Jesus por certo queria que os discípulos se lembrassem dos Livros Sapiensiais, onde vemos o pão e o vinho da Sabedoria serem oferecidos gratuitamente a quem os desejassem (Provérbios 9,1-6). Encontramos também no Êxodo o pão e o vinho vindos do céu, sem qualquer outro trabalho senão o de recolhê-los. Há, portanto, uma oposição entre o pão que foi ganho com o próprio trabalho e o que foi dado. Jesus aqui prefigura o dom que vai fazer aos homens: dom de si mesmo. Uma observação se impõe: este dom da vida, que caracteriza a «conduta» de Deus para com todos nós, mulheres e homens, desapropria-nos de certo modo de nós mesmos. Comer um pão que não tenhamos ganho com o nosso esforço liquida com qualquer pretenção da nossa parte. Pretenção de, por nós mesmos, querer «fazer a nossa vida», de salvar-nos a nós mesmos, de conquistar nós mesmos a Sabedoria. Por isso o dom de Deus é uma prova: é a prova da fé. Onde vamos colocar nossa confiança? Gostaríamos tanto de «não precisar de ninguém»! Termos de encontrar a segurança fora de nós só pode nos trazer tranquilidade mediante o risco da fé.

O garoto
«Um menino», traduz a Bíblia de Jerusalém. Vejo também aí um contraste entre o adulto, que ganha a sua vida, e a criança, que não a ganha. No entanto, é esta quem detém o único alimento disponível. E importa de que alimento se trata: pães e peixes, os dois símbolos do próprio Cristo, na Igreja primitiva. E trazidos por um garoto! Uma criança, que deve se apoiar em algum outro para poder viver, mas é ela quem detém a Sabedoria (Mateus 19,14). A criança faz parte dos pobres, aos quais pertence o Reino dos Céus. Há um contraste igualmente entre as duzentas moedas de prata, ou os duzentos dias de trabalho, e a insignificância dos cinco pães e dois peixes. Para que Deus possa agir, é preciso que o homem traga alguma coisa, o que tiver, que, de qualquer forma, será sem proporção perante o dom. Filipe deu a sua resposta, mesmo que superficial; já o garoto deu a sua refeição, ainda que derrisória diante dos cinco mil homens… Deus nos dá, fazendo com que outros nos dêem, porque, para receber, temos de entrar na lógica, no movimento do dom. Assim como o garoto, Cristo nos dará o que tem; e será verdadeiramente tudo o que tem: a sua carne e o seu sangue. E sua carne que foi entregue e o seu sangue, derramado, serão o alimento de todos nós, mulheres e homens, para a vida eterna.

Um conflito entre duas sabedorias
Este evangelho faz parte de um conjunto que é preciso ter em conta: primeiro, Jesus multiplica os pães; depois, escapa da multidão que quer fazê-lo rei; e, finalmente, anda sobre as águas, para encontrar os discípulos que haviam embarcado com tempo ruim. Será que devemos ver nestes três tempos o equivalente das tentações que abrem a vida pública de Jesus, nos evagelhos sinóticos (por exemplo, Lucas 4)? Muitos exegetas pensam que sim: a multiplicação dos pães equivaleria ao “manda que estas pedras se transformem em pão”; a vontade de fazer dele o rei corresponderia ao “todos os reinos da terra eu te darei”. E, por fim, andar sobre as águas, não seria tentar a Deus tanto quanto o jogar-se do pináculo do templo? A cena das tentações anunciava o tom característico de toda a existência de Jesus. O texto que lemos hoje dá início ao que foi chamado como “a crise de Cafarnaum”: a maior parte dos discípulos irá deixar Jesus (evangelho do 21º Domingo). Assim como o próprio mestre, também os discípulos devem escolher entre duas Sabedorias, entre duas maneiras de conceber a vida: ou escolhem o poder (a realeza), a abundância material (os pães multiplicados) e o prestígio dos milagres e performances, ou escolhem o dom de si mesmos, para que os outros tenham vida.
Marcel Domergue, jesuíta

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