Domingo, 26 de novembro de 2017: Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo – Ano A

Um rei servidor e unificador. Muitos dos que acompanhavam o Cristo, inclusive os Apóstolos, esperavam que Jesus, o Messias, fosse «restabelecer o reino de Israel». Jesus, no entanto, quis antes de tudo colocar-se a serviço de todos. A única realeza que reivindica «não é deste mundo».

Textos deste Domingo

1ª leitura: “Eu farei justiça entre uma ovelha e outra, entre carneiros e bodes” (Ezequiel 34,11-12.15-17)

Salmo:
Sl. 122(123) – R/ O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma.

2ª leitura: Quando ele entregar a realeza a Deus Pai, Deus será tudo em todos. (1 Coríntios 15,20-26.28)

Evangelho: Ele se assentará em seu trono glorioso e separará os homens uns dos outros (Mateus 25,31-46)

Um rei, mas não como os outros.
A figura real apresentada nas Escrituras não pertence mais ao universo da nossa experiência, nem mesmo nos países onde ainda se mantém a realeza. “Rei” é uma palavra que ainda hoje subsiste, mas apenas como metáfora. Mesmo assim todo o mundo sabe que rei é o “príncipe”, ou seja, o “primeiro”. Em sua carta aos Colossenses (1,15-18), com ecos na 2ª leitura de hoje, São Paulo não hesita em qualificar Cristo como “primeiro”: “o Primogênito de toda criatura” (…) “o Princípio, o primogênito dos mortos, tendo em tudo a primazia”. Quem diz rei diz poder, e, até mesmo, poder absoluto, no caso das antigas realezas. Ora, Jesus inverteu totalmente as perspectivas: “Os reis das nações as dominam e os que as tiranizam são chamados benfeitores. Quanto a vós, não deverá ser assim; pelo contrário, o maior dentre vós torne-se como o mais jovem, e o que governa como aquele que serve”. Esta passagem de Lucas 22,25-26 está longe de ser a única a ilustrar o tema que se encontra em toda parte nos evangelhos. Com Cristo, o conceito de realeza muda de sentido. Temos, portanto, de fazer um esforço para compreender o que as Escrituras, e em seguida a Igreja, querem dizer quando falam do Cristo Rei. Notemos que, a princípio, Messias, ungido, rei e Cristo são sinônimos. “Cristo Rei”, portanto, é um pleonasmo. O tema remonta a Saul, evidentemente, mas a figura real inspira-se, sobretudo, em Davi e Salomão. Num futuro indeterminado, um descendente de Davi virá instaurar o “Reino de Deus”.

A vitória da Cruz
Para melhor compreender o que seja a realeza de Cristo, é preciso ter a consciência muito clara de que a cruz é uma tomada de poder. Não só a Ressurreição é tomada de poder sobre “o último inimigo, a morte” (1 Coríntios 15,26); também a cruz já é, ela mesma, a vitória sobre tudo o que na humanidade está voltado para a morte. Paulo chama estas tentações maléficas de tronos, potestades e dominações ou Principados, Autoridades e Dominadores, “os espíritos do Mal que povoam as regiões celestiais”, os “ares” (Efésios 6,12). Traduzindo: tudo isto que flutua nos ares de cada tempo, tudo o que vai se alojando como modo de pensar e acaba por determinar a mentalidade de uma coletividade e por se impor sobre as liberdades individuais. O entusiasmo irrefletido e unânime de uma torcida é um exemplo benigno disto. Mais grave é o contágio gerado num linchamento. Menos visível é a convicção generalizada de que quanto mais se possui mais importante se é; de que nada nem ninguém devam ser levados em conta, quando o que se tem em vista é o sucesso; de que “o fim justifica os meios” etc. Cristo assumiu em si mesmo o poder sobre todos estes “demônios”, de prepotência e dominação, pelo único fato de ter aceitado deixar-se conduzir à morte injustamente, “sem motivo” (João 15,25). Para isso, foi preciso fazer calar dentro de si esta vontade quase universal, de se viver a qualquer preço. Escolha que já era perceptível desde o início, na cena das tentações. Mas eis que, levantado na cruz, Jesus se põe acima de tudo o que, em nós, provoca a violência, ofensiva ou defensiva. É assim que ele toma o poder, no topo o mais alto, sobre “tudo o que nos é contrário”.

Filhos de Deus e, portanto, herdeiros do Reino.
Compreendemos, portanto, que, a Realeza de Deus, em Cristo e por Cristo, é exercida, não sobre nós, mas em nosso favor. É exercida sobre tudo o que possa nos prejudicar. Podemos dizer, certamente, que Cristo é o nosso Rei, o nosso Senhor, mas não é esta a maior aposta do “Reino”. Somos “herdeiros do Reino”, somos um “povo de reis”, chamados, portanto, a reinarmos com Cristo. A unção que recebemos no Batismo é a unção real que faz de nós “Cristos”. Este poder que recebemos, sobre todas as potestades e dominações, e que desde já nos faz ser “filhos de Deus”, é exercido ao longo de toda a história. E devemos confirmá-lo incessantemente, reviver incessantemente a Páscoa. As tentações mortais, as pulsões homicidas não podem ir além do que levantar a cruz; elas, aí, atingem o limite do seu poder. Pois tudo o que chegam a fazer é provocar a superabundância do amor, ou seja, o contrário delas, anulando-as. O amor revela-se assim em toda a sua gratuidade: os homens odiaram sem motivo; o amor, então, revela-se, também ele, sem motivo. Injustificado. Releiamos neste contexto o diálogo de Jesus com o malfeitor “crucificado justamente”. Ficamos sabendo que Deus não espera a nossa justiça para nos justificar; basta tão somente a fé em seu amor, que supera toda a justiça. Ficamos sabendo também que nada, ainda que seja o pior, nos poderá impedir de responder com amor ao que quer que seja que nos agrida. Ou seja, nada poderá nos impedir de nascer de novo, de ganhar um novo nascimento, como imagens e filhos de Deus. Este é o Reino de Cristo, é este o nosso Reino.

Marcel Domergue, jesuíta

Veja também