Domingo, 24 de junho de 2018: Natividade de São João Batista-Ano B

Chamado por Deus desde antes do nascimento. Deus chama quem Ele quer e quando quer. O “servo Israel” e o precursor João Batista, assim como o profeta Jeremias, foram chamados desde o seio materno, porque a missão de cada um deles revestia-se de uma importância muito particular na história da Salvação. O nascimento de João, uma criança improvável, nascida de pais já idosos e estéreis, anuncia outro nascimento ainda mais maravilhoso. Por toda a sua vida, João Batista será aquele “que prepara os caminhos do Senhor”.

Textos deste Domingo

Missa da Vigília

1ª Leitura: “Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes de saíres do seio de tua mãe, eu te consagrei e te fiz profeta das nações” (Jeremias 1,4-10).

Salmo: Sl. 70(71) – R/ Desde o seio maternal, vós sois o meu amparo.

2ª Leitura: “Procuraram saber a que época e a que circunstâncias referia-se o Espírito de Cristo que estava neles” (1 Pedro 1,8-12).

Evangelho: “Tua esposa Isabel vai ter um filho e tu lhe darás o nome de João” (Lucas 1,5-17).

Missa do Dia

1ª Leitura: “Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Isaías 49,1-6).

Salmo: Sl.138(139) – R/ Eu vos louvo e vos dou graças, ó Senhor, porque de modo admirável me formastes!

2ª Leitura: “Depois de mim vem aquele do qual nem mereço desamarrar as sandálias” (Atos 13,22-26).

Evangelho: “Zacarias pediu uma tabuinha e escreveu: João é o seu nome” (Lucas 1,57-66.80).

Deus e nós vimos ao mundo
Quer se trate de Isaías, Jeremias ou João Batista, nossos textos dizem que estes homens já existiam em Deus antes mesmo de serem concebidos no seio de suas mães. Este “antes”, aliás, é ilusório, pois o que existe em Deus é eterno. Está fora e para além do tempo. E, no entanto, pode aparecer no tempo, quando “os tempos se fazem completos”. A nossa maneira, humana, de viver a eternidade é habitar o tempo. Temos aqui, pois, João Batista, um hóspede da eternidade de Deus que emerge no tempo. O mesmo vale para o Verbo, em sua Encarnação: o Verbo fora do tempo ganhou corpo no tempo. O Cristo é chamado de “o primogênito” de uma multidão de irmãos. Isto sugere que nós também existimos em Deus e que esta existência eterna projeta-se na horizontalidade do tempo que temos por viver. Em outras palavras, assim como João, também nós fomos queridos, fomos gerados por Deus. Um dos obstáculos que encontramos em nossas existências é que não nos amamos o bastante. Temos dificuldade em acreditar até que ponto cada um de nós é precioso para Deus. Pelo único fato de existirmos, já estamos dizendo, estamos significando que Deus veio ao mundo, que Ele deu para Si mesmo um rosto neste mundo. Tomemos consciência da nossa dignidade. Todos somos João Batista, de algum modo, e, mesmo que duvidemos disso, anunciamos sem cessar Aquele que veio, que vem e que virá.

O inesperado vindo de Deus
Isabel sofre com a esterilidade. Em sua idade, assim como Sara no passado (Gênesis 18,1-15), nada mais tem a esperar a este respeito. Quanto a Zacarias, podemos vê-lo inteiramente dedicado aos ritos do templo, mesmo se isto não implique em nenhuma esperança para o futuro. Somente a rotina do calendário, a engrenagem dos dias análogos. Por isso a visita de Deus o desconcerta. É bom demais para ser verdade. Onde estão as provas? Falamos de bom grado no Deus que responde às nossas expectativas, no desejo que é necessário ao acolhimento da “graça”. Mas, aqui, ficamos sabendo que é Deus quem toma a iniciativa; Ele é que vem às nossas vidas quando sequer O esperávamos; Ele é que nos abre um futuro e um caminho onde críamos haver somente impasse. Surpreso com a voz do anjo irrompeu-se o inacreditável. Não tendo Zacarias acreditado imediatamente na palavra de Deus, ei-lo privado da palavra; logo ele, que recebera a promessa de ser o pai da voz que clama no deserto! Dúvida e mutismo enfim provisórios. Uma coisa a mais para aprendermos: ainda que nossa fé não corresponda à visita de Deus, ainda que permaneçamos céticos e inertes, o poder do amor de Deus por nós vence todos estes obstáculos. Estamos unidos até mesmo em nossas ausências. “Levanta-te e anda” dirá Jesus. Esperemos em paz a visita salvadora de Deus. João receberá um nome que não pertence à sua família: é o filho que vem de alhures. Assim como cada um de nós também, em certa medida.

Cada um por todos
Isabel e Zacarias, com certeza, ficaram supercontentes com o nascimento de seu filho. Filho que, no entanto, não era para eles nem para prolongar-lhes a família. Era o herdeiro de todo o profetismo de Israel. Veio carregado de todo o povo que o precedeu, tendo se concentrado nele a milenar espera de seu povo. Entretanto, este povo particular estava ali somente para simbolizar a solicitude de Deus para com todas as nações (leituras da vigília e do dia). Assim como todo Israel, João também não existe para si mesmo, mas para Outro, e, através deste Outro em quem tudo foi criado, para todos os homens. Eis aí, pois, o anúncio de outro nascimento, ou seja, o nascimento do Corpo de Cristo, do corpo formado por toda a humanidade nele reunida. Sendo assim, nenhum de nós existe unicamente para si mesmo. O que faz cada um realizar-se em si e por si mesmo é ser para os outros, assim como o é pelos outros. O nascimento de João ilustra o fato, mesmo se imediatamente isto não apareça, de que todo nascimento é um acontecimento de porte planetário: é um fato que diz respeito a toda a humanidade. Sim, mas isto não é todo mundo que percebe. O recém-nascido que está aí é mais precioso aos olhos de Deus do que aos olhos dos homens. Pois também aí somos reunidos por Deus: a vida de João não parece ser muito preciosa aos olhos de Herodes nem a vida de Cristo tem muito peso na balança dos notáveis da época. Então, não tenhamos medo como Zacarias, que teve medo no templo. Deus encontra-nos aqui mesmo, onde estamos esquecidos ou onde somos rejeitados.
Marcel Domergue

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