Domingo, 19 de novembro de 2017: 33º Domingo do Tempo Comum – Ano A

Frutos dignos do Reino. Variam os dons de pessoa para pessoa, cabendo a cada um fazê-los frutificar. São felizes os que sabem apreciar os dons recebidos, compartilhando-os com o próximo e com toda a comunidade, para o aumento da felicidade de todos.

Textos deste Domingo

1ª leitura: “Com habilidade trabalham as suas mãos” (Provérbios 31,10-13.19-20.30-31)

Salmo: Sl. 127(128) – R/ Felizes os que temem o Senhor e trilham seus caminhos.

2ª leitura: “Sabeis perfeitamente que o dia do Senhor virá como ladrão, de noite” (1 Tessalonicenses 5,1-6)

Evangelho: “Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais” (Mateus 25,14-30 ou 14-15.19-21)

O mundo em nossas mãos
A imagem do patrão que se ausenta aparece muitas vezes nas parábolas. É que estamos aí: até mesmo Jesus, visibilidade do Deus invisível, vai desaparecer. E eis-nos neste estágio, do “crer sem ver”. Mais ainda: em certo sentido, Deus não age diretamente em nosso mundo, em nossa história. Os “talentos” foram todos entregues aos homens: estão conosco, em nossas mãos. Já temos lido isto, com outra linguagem, em Gênesis 1,28. Se Jesus o repete aqui, é para nos fazer tomar consciência da nossa responsabilidade e da nossa dignidade. Este fato, de que a gestão do mundo nos foi confiada, é obra do próprio Deus. O amor de Deus para com cada um de nós passa pelos outros, por todos os outros. Por mim, por você. Vivemos isso na ausência aparente d’Aquele que nos fez ser, na noite da fé; mas, um dia, tudo virá à luz. A luz de Deus, a volta do Cristo, a volta do “patrão” da parábola. Notemos como se levam em consideração as diferenças entre os “empregados”: não têm todos, as mesmas capacidades. Não nos surpreendamos se outros fazem melhor do que nós. Todo o amor do mundo pode ser investido em pouca coisa, nesse “pouco” que está na medida das nossas possibilidades e que, como diz Jesus, vai se tornar “muito mais”; são as palavras que ele usa para qualificar o futuro do primeiro e do segundo empregado. O pouco que fazemos, na medida dos nossos meios, faz-nos participantes da totalidade da obra divina, que é criação do mundo. Notemos que os talentos confiados aos empregados não são recuperados pelo patrão, mas permanecem na posse de cada um deles. Somos na verdade convidados a entrar na alegria de Deus. “Vem participar da minha alegria”, diz o patrão. Talvez, não sejamos suficientemente ambiciosos.

O terceiro empregado
Ora, não somos suficientemente ambiciosos porque não confiamos o bastante. Pois o que se esconde por trás das nossas indolências e inércias é a penúria de fé. O terceiro empregado enterrou o talento porque desconfiava do seu patrão. Via-o como um homem severo, que colhe onde não semeou. Assim, sem acreditar no amor, não podia encontrar o amor. Teresa de Lisieux dizia que Deus se comporta conosco conforme a imagem que fazemos d’Ele. Acreditas ser Ele um patrão severo? Pois bem, terás de lidar com um patrão severo. É exatamente o que acontece na parábola. O obstáculo de fato existe, mas está posto do lado do homem. Ele é que se fecha ao amor, amor cuja visita ele recusa, pois não acredita que exista. Ao enterrar o talento que lhe fora confiado, o que o terceiro empregado enterrou foi o amor. O amor? Sim, o próprio Deus. Tudo isso prefigura a Paixão e a deposição no túmulo. E foi, no entanto, o Amor que nos deu a mesma vida que quisemos tirar dele! Assim, por seu derradeiro dom, foi o Amor que teve a última palavra. E o novo Adão renasce da poeira, para entrar na alegria de Deus. Cada um de nós é chamado a refazer o itinerário de um novo êxodo. O terceiro empregado não foi convidado a entrar, mas, pelo contrário, foi jogado “lá fora, na escuridão”. Surpreendente? Desconcertante? Não veio o Filho do homem para “buscar e salvar o que estava perdido” (Lucas 19,10)? Temos aí uma das linhas dos evangelhos que entra em contradição com os anúncios da salvação universal. Jesus está mostrando aí o que normalmente deveria acontecer. Afinal, ele é quem será lançado “fora do acampamento”, fora da cidade dos homens (ver Hebreus 13,12-14). Despojado de tudo o que tem, dará sua vida, para transmiti-la a nós. Ele é quem tomará o lugar do terceiro empregado.

Quando o patrão se ausenta
Dissemos que a metáfora do patrão que se ausenta aparece muitas vezes nos evangelhos; por exemplo, na parábola dos vinhateiros homicidas. O que nos leva a pensar uma grande questão, presente em todo o Antigo Testamento: O que faz Deus? Está dormindo? Está surdo? «Onde está o teu Deus ?», perguntam os incrédulos ao crente desamparado (Salmo 42,4 e 11). Esta é a questão que se põe a propósito de todas as grandes catástrofes e todos os «genocídios». Jesus não insistiria tanto na ausência do patrão se nossa crença espontânea não tomasse Deus como autor de tudo o que acontece debaixo do sol. «Foi Deus que lhe enviou esta doença, esta provação; Ele se lembrou de você»! Frases que ainda hoje são ouvidas, até mesmo na liturgia. Ora, o patrão ausentou-se; o Criador entrou em seu repouso do 7º dia, deixando o homem à sua liberdade, a fim de gerir ele mesmo a criação, assumindo domesticá-la (Gênesis 1,27-31). Essa é a riqueza que temos de fazer frutificar. Temos, pois, de dar graças a Deus por nos fazer incessantemente criadores, conforme a sua imagem. Os «talentos» que temos vêm do patrão, vêm de Deus, mas cabe a nós assumi-los e assumir tudo o que a vida nos propõe e nos impõe.

Ausente verdadeiramente? Sim e não
Não podemos tomar um tema dos evangelhos e isolá-lo da totalidade das Escrituras. Ainda mais se, confrontado com outros, entrar em contradição. Trata-se, então, de descobrir o «nível» superior em que estes contrários possam se reconciliar. É assim que esse tema da ausência de Deus entra em conflito com «eu estarei convosco até a consumação dos séculos» ou com «onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles» e muitos outros textos. Deus, obviamente, está ausente enquanto causa de tudo o que acontece, mas se faz presente através de nossas decisões e de nossas ações. É Ele quem está ativo na energia e na inteligência aplicadas pelos empregados que fizeram os talentos frutificarem. Mas, ao contrário, Ele não está na inércia do empregado que «escondeu o talento no chão», imagem da sepultura e, portanto, da morte. De certo ponto de vista, não foi o patrão que se ausentou verdadeiramente; nós é que temos o poder de nos afastarmos dele. Lembremos o que diz Jesus, em João 15,1-8: que só podemos dar frutos (fazer os talentos frutificarem) se permanecemos nele e ele permanecer em nós. Tudo o que fazemos de bom é obra da Aliança, do casamento entre a liberdade do homem e a liberdade de Deus. A parábola ressalta o lado da liberdade do homem, mas é o Patrão mesmo quem nos confia os talentos, enquanto esperamos a volta do Cristo. Daqui até lá, iremos nos tornar um só com ele, no Espírito.

De quem é a culpa? E que culpa?
Podemos usar certamente esta parábola para nos interrogarmos e perguntar-nos a nós mesmos se de fato estamos dando frutos, e reconhecer que temos muitas vezes enterrado os talentos. Para resumir, sempre podemos “moralizar” e, até mesmo, talvez, nos culpar. Mas penso que, dessa forma, ficaria faltando o essencial. Vamos reler os motivos que paralisaram o terceiro empregado. Primeiro, ele disse que tinha medo. Em seguida, disse que «sabia»… Assim como Adão, pretendia saber distinguir entre o bem e o mal. E, para ele, o patrão era mau: «Sei que és um homem severo, pois colhes onde não semeaste; por isso fiquei com medo». No fundo, temos aí uma imagem que sugere a serpente de Gênesis 3; e é exatamente nisso, em cada um de nós, que pode estar o início do fracasso e da desgraça: o «pecado original», se quisermos. Acreditar que, verdadeiramente, Deus é Amor: este é o desafio que nos está proposto. Crer e, por consequência, sair do medo que nos esteriliza. Ao fazermos o exame de consciência, vamos buscar identificar os medos que nos fazem tomar Deus por um patrão «severo». Já o temos repetido, essa é uma das maiores questões da nossa vida, talvez a que comande todo o resto: a passagem do medo à fé. Até mesmo quando, assim como Jesus pregado na cruz, estivermos sendo agredidos pelo que existe de pior. Exatamente por isso é que os encontros de Jesus com os seus discípulos começam com frequência por: «Não tenhais medo».
Marcel Domergue, jesuíta

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