Domingo, 13 de agosto de 2017: 19º Domingo do Tempo Comum – Ano A

Coragem! Sou eu. Logo após o sinal da multiplicação dos pães e de seu compartilhamento (18º Domingo do Tempo Comum), Jesus realiza um novo sinal: o de andar sobre as águas e apaziguar a tempestade. Da mesma forma que naquela noite, Jesus permanece hoje conosco, no barco, cuidando verdadeiramente dos que são seus.

Textos deste Domingo

1ª leitura: “Permanece sobre o monte diante do Senhor” (1 Reis 19,9.11-13)

Salmo: Sl.84(85) – R/ Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade, e a vossa salvação nos concedei.

2ª leitura: “Desejaria ser segregado por Cristo em favor de meus irmãos, os israelitas” (Romanos 9,1-5)

Evangelho: “Manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água” (Mateus 14,22-33)

Deus e o mal
Na Bíblia, o tema do alimento e da refeição é onipresente, desde o primeiro capítulo do Gênesis. Comer ou não comer, eis aí uma grande questão! A este respeito, o Levítico prescreve uma multidão de instruções, a fim de que a refeição se tornasse uma espécie de rito. É que o alimento recapitula a nossa relação com a natureza sendo o motivo para grande parte do nosso trabalho. Enfim, isso tudo tem a sua origem em Deus, que nos fez, a uma só vez, dependentes e gestores de toda a criação. Vamos reler o texto de Preparação das Oferendas das nossas celebrações: “Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo pão que recebemos de vossa bondade, fruto da terra e do trabalho humano, que agora vos apresentamos e para nós se vai tornar pão da vida.” Está tudo aí: Deus que é a origem de tudo o que existe; a natureza da qual vivemos e o trabalho de homens e mulheres que a transformam. Esta vida frágil que mantemos, destinada à morte, torna-se prelúdio de uma vida indestrutível. Não esqueçamos que a vida eterna, particularmente no Apocalipse, nos é apresentada muitas vezes por um banquete. O alimento tomado em comum significa compartilhamento. Servir-se do mesmo prato. E, nas Escrituras, não se come com seja lá quem for não importando quem: a refeição é um sinal de união, de comunhão. Jesus fez-se criticar duramente porque não hesitava em comer com os publicanos e os pecadores. A refeição é vista como um ato religioso. A Eucaristia recapitula tudo isto. Quando nos pomos à mesa, faríamos bem em pensar na natureza que nos alimenta, em todos os que produziram, transportaram e prepararam o que vamos tomar, e em Deus, que é a origem de tudo isso. É neste contexto que devemos situar a multiplicação dos pães.

O alimento verdadeiro
O que acabamos de lembrar, de alguma forma, é o que prepara, o que precede e o em que consiste a multiplicação dos pães. Mas este relato também está prenhe de um futuro em gestação. Jesus acabara de saber da morte do Batista que, decapitado, teve a cabeça, posta num prato, apresentada a Herodes durante um banquete. Decide então retirar-se “para um lugar deserto, afastado”. Para quê? Sem dúvida, para rezar e pensar no seu próprio futuro: João é seu precursor até mesmo na morte. Mas eis que a multidão vem arrancá-lo de suas reflexões. E Jesus não resiste: Deus submete-se aos desejos dos homens. “Tomado de compaixão”, cura os doentes de suas enfermidades e deficiências, que são prelúdios da morte. E depois de curá-los, vai alimentá-los. Não foi para isto que veio ao mundo? Notável que os discípulos tivessem sido mobilizados para distribuir o alimento. Coloquemo-nos na pele deles. Diante da miséria do mundo, não imaginamos poder em parte sequer remediar tal situação, contando apenas com “cinco pães e dois peixes”. Não seremos nós que faremos esta multiplicação, mas por nossas mãos é que isto vai acontecer. É através uns dos outros que Deus nos socorre, e o pão que temos a distribuir é o próprio Cristo. Releiamos o capítulo 6 de São João, a partir do versículo 26: Jesus repete ser ele o pão da vida e o pão que ele dará ser a sua carne, que será entregue para a vida do mundo. Mas, então, o que o peixe está fazendo aí? Sabemos que o peixe, na Igreja primitiva, era símbolo do Cristo. O batismo, símbolo da morte e ressurreição, estava aí sem dúvida por algum motivo. Os novos batizados eram chamados de “peixinhos de Cristo”. Compreendamos que a multiplicação dos pães anuncia a ceia em que Jesus irá dizer: “Tomai e comei, isto é o meu corpo”, às portas já da Paixão.

A morte do justo
Os primeiros versículos do evangelho nos mostram Jesus cumprindo finalmente o porquê havia partido para um lugar solitário (versículo 14). Lembremos que esta decisão foi tomada logo após ter recebido o anúncio da morte de João Batista. Encontrou-se assim Jesus diante do drama que em breve seria o seu: o justo conduzido à morte. «Eles atacam a vida do justo, declarando culpado o sangue do inocente» (Salmo 94,21). Estamos precisamente diante da confusão entre o bem e o mal, bem e mal que, de acordo com Gênesis 3, está na raiz de toda a culpa. É a regressão ao caos primordial, onde tudo está misturado no grande abismo líquido de Gênesis 1. Para os Hebreus, como sabemos, as águas profundas representam a morte. O Batista acaba de ser afogado nas «ondas da Morte» do Salmo 18. Impossível encontrar as reflexões de Jesus durante esta oração noturna. Tudo o que se pode dizer é que o homicídio do Batista está no centro dos seus pensamentos. João é seu precursor até mesmo na morte. Como vimos, a multiplicação dos pães foi uma resposta ao assassinato de João, uma resposta que é uma profecia pascal. Andar sobre as águas mortais, o que vem logo em seguida, tem este mesmo significado, com algumas nuanças. Após o anúncio do dom da sua carne para a vida do mundo, eis prefigurada aí a aventura de Pedro no decurso da Paixão.

O Messias pisoteia a morte
Temos o “mar” e o vento, dois protagonistas de Gênesis 1,1 antes de o mundo existir; temos o vento salvador, que vem secar as águas do dilúvio em Gênesis 8,1; temos o vento que abre o Mar Vermelho, em Êxodo 14,21. Todos estes são ventos bons. Mas, naquela noite, a noite que significa a ausência da luz que ilumina o mundo, o vento é um vento mau, um vento contrário: é o vento dos crimes dos homens. Jesus é quem vai pisar as águas torrenciais, as grandes águas da morte. «Teu caminho passava pelo mar, tua senda pelas águas torrenciais» (Salmo 77,20). Em Isaías 43,2, diz Deus a seu Eleito: «Quando passares pela água, estarei contigo, quando passares por rios, eles não te submergirão.» A vida triunfará da morte. Os discípulos, enquanto esperam, lutam em seu barco. Ao verem Jesus andar sobre o mar, ficam apavorados e o tomam por um fantasma, tal como em Lucas 24,38, quando Jesus ressuscitado vem encontrá-los. Tudo, então, começa com o medo. Tanto é verdade que a aproximação e o dom de Deus deixam-nos desconcertados. Até mesmo o anjo da Anunciação, diante de uma Maria inquieta e “intrigada”, não se viu obrigado a dizer: «Não tenhas medo»? A aventura de Pedro sobre as águas é um dentre os muitos textos que desenham para nós o mapa do que todos nós, todos os dias, devemos percorrer: a passagem do medo à fé. Pedro compreendeu que aí onde está o mestre aí mesmo pode e deve estar também o servidor: «Manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre as águas» – e águas da morte; não vamos esquecer.

O naufrágio de Pedro
«Senhor, estou pronto a ir contigo à prisão e à morte», diz Pedro a Jesus, em Lucas 22,32. Eis que Pedro avança então sobre as águas, ao encontro de Jesus. Mas, bruscamente, percebe o que está fazendo: havia deixado o barco. Como se não visse mais Jesus, sente apenas o poder do vento e vê somente a água mortal. Sua fé é que o sustentava e ela havia naufragado: então, Pedro afunda. No último momento, volta-se como sempre para Jesus: «Senhor, salva-me!» Imediatamente Jesus, estendendo-lhe a mão, segurou-o. Salmo 18,17: «Do alto, ele estende a mão e me toma, tirando-me das águas torrenciais.» A mão divina sobre o ombro do homem. Lembremos agora o que vai acontecer no decurso da paixão. Em Lucas 22,31 Jesus diz a Pedro que Satanás (o adversário) “pediu insistentemente para vos peneirar como o trigo”. E acrescenta (v. 32): «Eu, porém, orei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça: quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos.» De fato, a fé de Pedro vai fraquejar e ele vai cair, vai até ao fundo, quando das negações. Jesus fala sobre isso nos versículos seguintes. “Quando converteres” ou “quando voltares”, significa que havia «partido». Arrebatando-o das águas mortais, Jesus lhe diz: « Homem fraco na fé, por que duvidaste? » E, mesmo assim, Pedro ainda irá duvidar… Conclusão: se Pedro, que é a rocha sólida sobre a qual tudo foi edificado, mostrou-se tão quebradiço, não esperemos fazer melhor. Não nos espantemos nem nos desesperemos aos eclipses da nossa fé.

Marcel Domergue, jesuíta

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