Formação

A Sua Igreja

Domingo, 12 de novembro de 2017: 32º Domingo do Tempo Comum – Ano A

Vigilância, agora e sempre. A fé se vive no cotidiano. Ela se nutre do desejo de Deus e da alegria por reencontrá-Lo. Para todos que, cheios de esperança, aguardam a volta do Cristo, o desafio permanece sendo este: conservar acesas as chamas do desejo e da alegria e permanecer o tempo todo em vigília.

Textos deste Domingo

1ª leitura: A Sabedoria é encontrada por aqueles que a procuram. (Sabedoria 6,12-16)

Salmo: Sl. 62(63) – R/ A minha alma tem sede de vós e vos deseja, ó Senhor.

2ª leitura: “Deus trará de volta, com Cristo, os que, com ele, entraram no sono da morte” (1Ts 4,13-18 ou 13-14)

Evangelho: “O noivo está chegando; ide ao seu encontro” (Mateus 25,1-13)

A Sabedoria
O que é a Sabedoria? Ela aparece tardiamente na Bíblia, vindo recapitular todas as formas e imagens desta realidade imperceptível que tem origem em Deus e que faz existir tudo o que existe fora d’Ele. Podemos dizer que representa Deus saindo de Si mesmo e permanecendo totalmente Ele mesmo. É este fluido sutil, que não é outro senão Deus dando-se um face a face e, assim, criando a alteridade. Além de numerosas passagens significativas, como Sabedoria 6, de onde se tirou a 1ª leitura, os três maiores textos a respeito da Sabedoria são: Provérbios 8,22-36, Sabedoria 7,21-30 e Eclesiástico 24,1-21. Textos de alta poesia e de uma riqueza incalculável. É preciso lê-los identificando neles tudo o que o Novo Testamento diz sobre o Cristo e o Espírito. De fato, com a vinda de Cristo, a antiga Sabedoria se desdobra, chegando-se à Trindade. A comunicação da Sabedoria divina para os homens atinge então o seu apogeu; o homem alcança o seu tamanho perfeito e nos tornamos participantes da natureza divina. A 1ª leitura pressente este dom definitivo que nos faz renascer da água e do Espírito. Sendo que tudo isso é para ser levado a sério: somos e valemos muito mais, infinitamente mais do que as nossas misérias e falhas poderiam nos fazer crer. A realidade que sai de Deus, e que é o próprio Deus transportando-se para fora de Si, se assim se pode dizer, torna-se nosso bem. Tornamo-nos Corpo de Cristo e Templo do Espírito.

Sabedoria e loucura
Quando a Sabedoria foi dada aos homens, revela-se o que já era, escondida no coração da criação desde o começo. A Sabedoria está na fonte de tudo o que existe, do que cresce e se desenvolve. Em Sabedoria 7,16-22, lemos que ela está na origem de toda a nossa ciência da natureza, da habilidade manual do artesão, de tudo o que inventamos e construímos. Assim, Deus é reconhecido como a origem absoluta de tudo o que existe: no homem, nada há de bom que não seja de Deus. Em que se torna a Sabedoria, quando anima os homens? Mais do que em ciências e técnicas, conforme dissemos, o seu primeiro efeito é a arte de discernir, de reconhecer o verdadeiro e o falso, o melhor e o pior. Em Salomão, a Sabedoria torna-se a arte de governar, a arte de se conduzir e de conduzir tantos por quem se é responsável. Lembremos que, no passado, a Parábola de hoje intitulava-se «As virgens sábias e as virgens loucas». Em vez de «virgens», preferiu-se «jovens», a justo título. Já «sábias» traduziu-se por «previdentes», com o inconveniente de cortar-se da Parábola o seu fundo escriturístico. Ora, o contrário de Sabedoria é a loucura, ou seja, a inaptidão para gerir sadiamente as nossas relações com a natureza, com os outros e com Deus. E em que consiste a Sabedoria e a loucura destas jovens?

Sabedoria vigilante
Enfim, traduzir «sábias» por «previdentes» não é tão mau. E o que devemos prever, a respeito do Reino dos céus? Ora, incontestavelmente, uma longa espera: ele não é para o imediato. E, enquanto esperamos, a noite faz-se densa ao nosso redor. Sabemos não ser necessário buscar interpretar todos os detalhes de uma Parábola. Arriscamos, no entanto, uma explicação: parece-me poder pensar que cinco das jovens sabiam que o esposo com certeza viria, mesmo fazendo-se esperar. A reserva de óleo é a esperança, que permite perdurar, manter-se bem, apesar de todas as aparências. Assim como Abraão que, como diz Paulo, esperou contra toda a esperança (Romanos 4,18). Nem mesmo os sonos passageiros da nossa fé devem-nos fazer temer nem diminuir a nossa reserva de fé. Posto poder ela estar escondida dentro de nós em profundidades tais que, ainda que nem sempre emerja à nossa consciência, está aí, contudo, em vigília, mesmo quando «dormimos». As cinco «insensatas» parecem os que construíram suas casas sobre a areia, sem prever possíveis furacões. Receberam bem a notícia da vinda do esposo, mas não acreditaram nela de verdade. Felizmente, um dia, a Sabedoria de Deus veio esposar a nossa loucura. A loucura da Cruz, loucura do amor, inacreditável Sabedoria de Deus (ver 1 Coríntios 1,20-25 e 2,6-9).

As dez jovens
Dez é um dos números perfeitos que, na Bíblia, representam a abundância e até mesmo a totalidade. Assim, estas dez jovens representam a humanidade inteira. Estão no limiar da sua vida, porque, desde o início, desde a juventude, a humanidade foi convidada para as núpcias de Deus com todos nós. Estamos a caminho destas núpcias, uma das imagens do que Jesus também chama de “Reino dos céus”. As lâmpadas acesas representam a nossa espera e a nossa vigilância. Que são necessárias, pois o esposo tarda por vir. Traduzindo: falamos do Cristo-Rei, da onipotência de Deus, da unidade dos homens, fruto do Amor, mas vivemos num mundo dilacerado por lutas fratricidas, pelo culto do dinheiro, pela vontade do poder, sem falar de terremotos, inundações etc. E a alegria das núpcias, assim como a Terra prometida, vai se apagando, à medida que caminhamos para ela. É preciso manter-se uma boa reserva de fé para resistir ao desânimo. O esposo tarda por vir. A parábola diz que ele vem “no meio da noite”, quando não se vê mais nada, quando a nossa inteligência já capitulou diante de tantas agressões. A chegada deste esposo nos escapa à vista; sabemos que ele está aí pelo que se se ouve dizer: um grito na noite? Então, temos de nos levantar e sair ao seu encontro. Mas, por que Deus não nos economiza este deslocamento? Em razão da nossa dignidade de seres humanos. A nossa comunhão com Deus, ou seja, com Aquele que é a plenitude da vida, não pode realizar-se sem que respondamos ao seu chamado, através de nosso acolhimento. O casamento exige um “sim” de uma parte e da outra, exige reciprocidade, as obrigações do encontro, a acolhida com liberdade. Então, sim, podemos começar uma vida nova, a Vida no sentido pleno da palavra. Com a fecundidade que a caracteriza.

Rumo à hora de acordar
Compreendamos que a nossa condição humana caracteriza-se pela espera: a alegria sem qualquer sombra, a realização das nossas aspirações as mais profundas, o acesso à nossa verdade, tudo isto está por vir. A volta de Cristo “na glória”, ou seja, na realização das suas núpcias com a humanidade, é para “o final dos tempos”. Enquanto esperamos, ele está e não está aí. Ele nos habita pela esperança. Está sempre a caminho. E nós, também. Não nos surpreendamos se dormirmos no decorrer da nossa espera. Mesmo sob o sono, mantém-se uma vigília secreta. “Eu dormia, mas meu coração velava”, diz a esposa do Cântico em 5,2. Patriarcas e profetas receberam muitas vezes a visita de Deus durante o sono, inclusive José, o esposo de Maria. Seja qual for a realidade escondida sob o relato destas intervenções divinas, compreendamos que a voz de Deus deve encontrar-nos disponíveis, abertos, prontos a despertar para uma vida toda nova. Este abandono de nós mesmos no sono não nos priva do amor que nos conserva em vida, nem da expectativa de despertarmos para uma nova existência. O sono “físico” torna-se, é claro, uma imagem dos nossos períodos de ausência da fé consciente, de férias do nosso desejo fundamental. Mesmo então, este desejo subsiste, e podemos ver nele a reserva de óleo das cinco jovens previdentes. Mas o que pensar do destino das cinco imprevidentes? Nesta parábola, em imagens, Jesus nos diz o que deveria acontecer se tudo se desenrolasse conforme a justiça. Mas outros textos nos informam que a justiça transforma-se em amor e que este amor justifica o injustificável. Releiamos, por exemplo, Mateus 19,23-26. Na Cruz é que veremos o excesso de injustiça utilizado para fazer nascer no mundo a justiça.
Marcel Domergue, jesuíta