Domingo, 11/02: 6º Domingo do Tempo Comum – Ano B

“Se queres, tens o poder de curar-me”. Inúmeras vezes, a nossa oração se torna «súplica». Que bom se todas as nossas súplicas se fizessem preceder destas palavras de confiança do leproso: «Se queres…» A verdadeira oração de súplica é em primeiro lugar submissão à vontade do Senhor. Não hesitemos em pedir, mas não deixemos de acrescentar: «Que tua vontade seja feita».

Textos deste Domingo

1ª leitura: «Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e tua carne será curada e ficarás limpo» (2 Reis 5,9-14).

Salmo: Sl. 31(32)- R/ Sois Senhor, para mim, alegria e refúgio.

2ª leitura: «Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo» (1 Coríntios 10,31-11,1).

Evangelho: «No mesmo instante a lepra desapareceu e ele ficou curado» (Mc 1,40-45).

Todos leprosos
Sabemos que, nos evangelhos, as doenças simbolizam um déficit espiritual: «Têm olhos, mas não veem; têm ouvidos, mas não ouvem.» No evangelho, a lepra representa tudo o que nos isola e nos afasta dos outros, impedindo-nos de nos tornarmos um só corpo com eles. Por isso o leproso devia manter-se em lugares desertos. Era um «impuro», o que se pode traduzir como «portador de um déficit de amor». Falhas quanto à integridade física eram tidas como uma insuficiência espiritual. Vamos repetir: estamos aqui no campo simbólico, por mais que, na realidade, qualquer enfermo possa apresentar alta qualidade humana. Tendo dito isto, notemos que a lepra quer nos mostrar que, além de íntimo, o nosso mal é contagioso, transmissível. A lepra é um resumo de todos os nossos déficits. O relato que lemos hoje nos fala, portanto, de nós mesmos e da nossa própria história pessoal. E, também, da história de toda a humanidade. Assim, pois, aqui estamos de um modo ou outro todos leprosos. Ignorar isto ou recusar reconhecê-lo redobra ainda mais a nossa enfermidade. Ou, ainda, reconhecê-lo com aflição, com desespero e «pessimismo» é ainda pior: aí é que o nosso mal passa a conquistar a sua última vitória. O que, então, faz Deus, esta Potência criadora que nos faz ser, diante da recusa de uma Criação à sua imagem? A fim de fazer com que tomemos consciência da força destrutiva de nosso mal, a Bíblia nos fala diversas vezes em castigos. Mas tais castigos podem ser compreendidos simplesmente como as consequências de nossa «lepra». Com Cristo, que é o resultado e o ponto de chegada de todo o Livro, ficamos sabendo que, diante da nossa enfermidade, Deus é tomado de «compaixão» (v. 41).

Jesus leproso
Como se manifesta esta compaixão? No evangelho, vemos Jesus estender a mão e tocar o leproso. E este é um gesto inadmissível! Torna Jesus também, por sua vez, impuro. Assim, em Cristo e por Cristo, é o próprio Deus que vem fazer-se solidário com o nosso mal. Já que insistimos em não querer nos tornar inteiramente «como Deus», ou seja, sendo inteiramente Amor, Deus, então, se faz como nós. Não em nossa carência de amor (o pecado), mas nas suas consequências mortais. Já o dissemos, Ele veio tomar a nossa lepra para nos dar a sua «saúde», a sua justiça. Este é o sentido da cura do leproso. Paulo, em Romanos 8,3, diz que, em razão do pecado, “Deus enviou o seu próprio Filho em carne” (em humanidade) semelhante à carne do pecado. Já em 2 Coríntios 5,21, ele vai mais longe: «Aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado por causa de nós, a fim de que, por ele, nos tornemos justiça de Deus.» Dizemos o mesmo quando repetimos que o Cristo tira o pecado do mundo. Falamos frequentemente, de modo, aliás, muito moralista, em «vontade de Deus». Pois, aqui ficamos sabendo qual é esta vontade, o que é que Deus quer: «Se queres, tens o poder de curar-me», disse o leproso. «Eu quero: fica curado!», respondeu Jesus. Repitamos isto, já que tanta gente não busca ter esta consciência: de que Deus é o adversário de nosso mal, não para nos punir por causa dele, mas para nos libertar dele. Por isso não percamos de vista o que a oração central dos evangelhos, o Pai Nosso, faz-nos dizer e repetir: «Livrai-nos do mal».

“Vai, mostra-te ao sacerdote.”
O leproso transgrediu a Lei, vindo até os lugares habitados, para encontrar Jesus. Jesus, por sua vez, avançou também uma proibição, ao tocar no homem impuro. Paulo explicará muitas vezes e de diversas maneiras que o amor está situado para além da Lei. O Amor não suprimiu a Lei, mas a superou. Não é mais em nome da Lei que agimos, mas em virtude do amor. No Sermão da Montanha, encontramos: «Ouvistes que foi dito aos antigos…» (a Lei); «Eu, porém, vos digo» (o Amor, para além da Lei). Quando Jesus disse ao leproso já purificado que fosse ver o sacerdote, para fazê-lo constatar a sua cura, submeteu-se à Lei. Mas, sublinhemos, não foi nem o sacerdote nem a Lei por ele representada que realizaram a cura. Conforme prescrito no Levítico, o sacerdote contenta-se com tornar oficial uma cura que não veio dele. Assim, o antigo leproso estaria reabilitado publicamente. Jesus, no entanto, exige com veemência que a causa da cura permaneça secreta. Vamos, então, às últimas linhas do evangelho e comparemos com Levítico 46: “Enquanto durar a sua enfermidade ficará impuro e, estando impuro, morará à parte: sua habitação será fora do acampamento”: constataremos que, agora, é Jesus quem está submetido ao estatuto do leproso: obrigado a evitar os lugares habitados. Lembremos Hebreus 13,12-13: «Foi por isso que Jesus, para santificar o povo por seu próprio sangue, sofreu do lado de fora da porta. Saiamos, portanto, ao seu encontro, fora do acampamento, carregando a sua humilhação.», «E de toda parte vinham procurá-lo». Fora dos muros que servem para fechar.
Marcel Domergue, jesuíta

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