Domingo, 10 de dezembro de 2017: 2º Domingo do Advento – Ano B

Preparai o caminho do Senhor. A voz dos profetas bíblicos é, a uma só vez, singular e múltipla: e, mesmo que circunstancial, é sempre atual. De Isaías a Jesus, passando por João Batista, esta voz sempre ressoa como uma boa notícia para o coração das nossas cidades e de nossas comunidades.

Textos deste Domingo

1ª leitura: “Preparai no deserto o caminho do Senhor” (Isaías 40,1-5.9-11)

Salmo: Sl. 84(85) – R/ “Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade e a vossa salvação nos concedei!”

2ª leitura: “O que esperamos são novos céus e uma nova terra” (2 Pedro 3,8-14)

Evangelho: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!” (Marcos 1,1-8)

Traçai um caminho…
Se de um lado temos o Êxodo de Israel, do outro também, temos o caminho de volta do exílio da Babilônia. É disto que Isaías está falando no início da 1ª leitura. Mas, aos poucos, esta imagem se transpõe, ganhando densidade. E eis que o caminho do homem para Deus se torna o caminho de Deus para os homens. Em outras palavras, a visita de Deus e sua união nupcial conosco não se produz ao modo de uma irrupção estrepitosa nem de uma teofania inesperada, mas é fruto de longa maturação, que se estende por toda a história. Foi preciso toda a Primeira Aliança e todas as peripécias que a Bíblia nos conta, para que os tempos se cumprissem, para que, com Jesus Cristo, o pacto inicial se tivesse cumprido. O Antigo Testamento não foi abolido, mas encontrou no Novo a sua última forma. Ou seja, o que chamamos de Encarnação não caiu na terra como um meteorito imprevisível: o Cristo já estava em formação, em gênese, desde a aparição dos primeiros humanos. E mais; não temos ainda senão sinais antecipados da Encarnação. Esta só estará completa no final dos tempos, quando tivermos atingido “o estado do Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo» (Efésios 4,13). O corpo que a humanidade dá ao Verbo, corpo este que o Cristo veio assumir, somente será alcançado na unidade para a qual estamos indo.

Os outros: caminho de Deus.
Podemos assim compreender porque a 2ª leitura nos fala em “demora”, em “paciência”, e, também, porque celebramos o Advento, mesmo que o Cristo já tenha vindo faz dois mil anos. Ele vem desde sempre! E virá a cada dia, até a sua última vinda, na «glória». E, enquanto esperamos, temos de viver já conforme os «costumes» deste novo mundo para o qual estamos caminhando (2ª leitura). Ou seja, em conformidade com o amor, o único caminho possível para a unidade. A presença e a instância do outro e dos outros já se encontram no modo pelo qual Deus vem até nós: é pelos outros que Ele vem até nós, por meio de todos os que levam a sua palavra e dão visibilidade à sua ação. Em Êxodo 20,18-21, o próprio povo pede que Deus não lhe fale diretamente, por medo de morrer. Moisés fez-se o único mediador. No evangelho, é João Batista que serve de intermediário, recapitulando assim todos os profetas anteriores. Quanto a nós, mesmo que nem sempre o queiramos, e até mesmo, felizmente, sem que sequer o saibamos, somos cada um de nós caminho de Deus para aqueles com os quais nos encontramos. E, reciprocamente, podemos esperar a visita de Deus quando nos encontramos com qualquer outro. Mesmo parecendo-nos este outro medíocre ou insuportável. Mais que pretender levar o Cristo e o Evangelho aos outros, aproximemo-nos deles como presença real do Cristo que vem até nós. Somos todos, por assim dizer, sacramentos de Deus.

Sob o rosto do mais fraco
Lembremos Mateus 25,31-45: Jesus vem nos encontrar sob o rosto dos mais deserdados, de todos os que a vida maltratou. Na fé cristã, estamos diante da subversão de todos os valores: eis que o Verbo de Deus, rico por excelência, fez-se o sofredor, o homem ferido, alguém que teve necessidade de ser socorrido e por quem um Samaritano, um estrangeiro, “moveu-se de compaixão” (Lucas 10,30-37. Ver também 2 Coríntios 8,9). Esta pobreza de Deus ganha também a forma da infância, que é o que vamos celebrar no Natal. Sabemos que, na Bíblia, junto com a viúva e todos os oprimidos, também a criança faz parte dos que foram chamados de «os pobres de Javé». São todos os que não se bastam a si mesmos, mas precisam de outros para que possam subsistir. A criança, contudo, significa algo, além disso: é como semente lançada na terra e trabalhada por um crescimento irresistível, mas que é secreto. O Cristo é sempre esta criança, este Ser a quem é preciso ajudar a viver, e que está a caminho do seu tamanho adulto. Ele caminhou em segredo na Primeira Aliança, e segue caminhando e crescendo em segredo, no decorrer da nossa história. Desta forma, ganha o incomensurável a forma do ínfimo. Mas vai crescendo, através de todos os nossos gestos de amor e mesmo durante o nosso sono. Cresce e, sem que sequer suspeitemos, crescemos também nós com Ele. Ainda que a messe cresça mesmo enquanto dormimos, permaneçamos o mais possível acordados, de vigia, conforme ao que outros textos nos convidam.

Abrir-se ao novo
A primeira leitura anuncia-nos a boa notícia do perdão de Deus e do seu regresso para o seio do seu povo. Ora, se Ele retorna, é porque havia sido antes escorraçado, ignorado e esquecido. E por que demorou tanto para voltar? Porque só poderia voltar a encontrar seu povo com, digamos assim, a permissão deste. Teve Deus de esperar que os homens se fizessem dispostos a recebê-Lo… A esta espera de Deus corresponde uma espera dos homens. A nós cabe preparar o caminho, preencher os vales e rebaixar as montanhas. Só então se fará ressoar o feliz anúncio: “Eis o vosso Deus”. Foi isto o que aconteceu com João Batista. Ele propunha um “batismo de conversão”. Batismo quer dizer a morte a um modo de viver e de pensar, e um renascimento para uma vida nova. Conversão significa uma mudança de ótica, uma virada, uma renovação. Trata-se de sair do passado para se abrir ao novo que se apresenta. João Batista é a figura deste apelo que nos vem do nosso futuro. E por que se teria refugiado no deserto, em vez de falar nas sinagogas? Porque com ele, começa um novo Êxodo que veio cumprir o que aquele de antes significava: Israel teve de atravessar o deserto para passar da escravidão egípcia à liberdade dos filhos de Deus. Travessia sempre a ser refeita, de diferentes formas. João e sua pregação ilustram esta passagem obrigatória. O evangelho faz questão de precisar o seu modo de vestir-se e alimentar-se, para mostrar o seu “despojamento”: só se pode acolher Aquele que vem tendo as mãos vazias. E mais; nossos textos não dizem nada sobre a infância de João nem de sua “formação”. Em Marcos, João aparece do nada: é apenas “a voz daquele que grita no deserto”. Também nós temos de nos esvaziar, para fazermos lugar a esta nova humanidade, ao “Filho do homem” que é ao mesmo tempo o Filho de Deus.

Está no meio de nós quem não somos capazes de reconhecer.
Quando falamos em mudança de vida, em acolhimento do novo, permanecemos no abstrato e, sobretudo, fixamos nossa atenção em nós mesmos e na escolha de uma melhor maneira de viver. Façamos um passo a mais, e um passo decisivo: trata-se com certeza de nos tornarmos disponíveis; disponíveis sim, mas para encontrar alguém. Notemos até que ponto João se fez todo transparente, a fim de que, através dele, passando por ele, viéssemos a nos abrir para o outro. Pois estamos todos aí! Mas não podemos indicar Cristo para os outros a não ser abrindo-nos nós mesmos a Ele. O próprio Cristo definiu-se como a via de passagem para o Outro, para o Pai, a Origem na qual podemos renascer. Trata-se, portanto, de acolher e ser acolhido; em outras palavras, trata-se de amor. Acolhendo a Deus e sendo acolhidos por Ele, entramos como que em nossa casa no Intercâmbio Trinitário. Para chegarmos aí, temos de viver o nosso êxodo pessoal. E a isto, precisamente, é que João nos convida. De agora em diante, Deus não se manterá mais na nuvem ou na coluna de fogo, mas estará presente em nós através do Cristo, que em Si mesmo realiza a unidade entre Deus e o homem. O Advento nos convida a que nos tornemos disponíveis para o encontro com o Cristo, a uma só vez conhecido e desconhecido. Este encontro é para ser refeito incessantemente. E, cada vez, descobrimos em Cristo traços que até então não havíamos visto. Assim, o Batista estará sempre aí, indicando-nos Aquele que está no meio de nós, mas temos dificuldade em reconhecer. É por meio dos outros que o Cristo vem a cada um de nós. Vamos então nós até eles, da mesma forma que “toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém” iam para o Batista, e voltemos os olhos para Quem eles nos indicam.
Marcel Domergue, jesuíta (tradução livre de www.croire.com pelos irmãos Lara)

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