Domingo, 1 de julho de 2018: São Pedro e São Paulo-Ano B

Duas colunas da Igreja. A Liturgia nos convida hoje a celebrar São Pedro e São Paulo, os dois apóstolos que, junto com os outros onze, plantaram a Igreja e a regaram com o próprio sangue. Apoiemo-nos nestas duas colunas, em sua fé e em seu testemunho; apoiemo-nos nesta Pedra, sobre a qual Jesus edificou a sua Igreja, e em Paulo, que permaneceu fiel até o fim, pois o Senhor o assistiu em seu anúncio do Evangelho a todas as nações.

Textos deste Domingo

Missa da vigília

1a leitura: Pedro cura um enfermo em nome de Jesus (Atos 3,1-10)

Salmo: Sl 18(19) – R/ Seu som ressoa e se espalha em toda a terra.

2a leitura: Paulo, o Judeu, torna-se Apóstolo do Cristo (Gálatas 1,11-20)

Evangelho: Pedro, pastor do rebanho de Cristo (João 21,15-19)

Missa do dia

1a leitura: Pedro é libertado da prisão pelo Senhor (Atos 12,1-11)

Salmo: 33(34) – R/ De todos os temores me livrou o Senhor Deus.

2a leitura: Confiança de Paulo no entardecer de sua vida (2 Timóteo 4,6-8.17-18)

Evangelho: A confissão de fé de Pedro (Mateus 16,13-19)

Unidade feita da união de diversidades
Segundo o evangelho de Mateus (16,18), Jesus diz a Simão: “Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. Passemos por cima das dificuldades que estas palabras, atribuídas a Jesus pelo evangelista, podem trazer e consideremos o fato de que a Igreja se edificou não apenas sobre Pedro, mas, sobre Pedro e Paulo, além dos outros onze apóstolos. Pedro é o apóstolo dos judeus, Paulo, o dos pagãos: o «de dentro», o primeiro, e o «de fora», o segundo. Esta dualidade é importante, porque mostra que, desde o início, mesmo havendo um só papa, a Igreja não foi construída sobre um modelo monárquico. Ela é feita de intercâmbio, de diálogo, de concertação. São diferentes maneiras de ser discípulo de Cristo. Se a Igreja promove o culto a tantos santos, é sem dúvida para nos estimular, mas também para nos mostrar que não existe um modelo único. A multiplicidade das ordens religiosas nos traz esta mesma mensagem. É preciso reler o 2º capítulo da Carta aos Gálatas para vermos como a Igreja nascente abriu-se à diferença. No versículo 11, Paulo nos conta o seu desacordo com Pedro: podem fazer-se advertências, corrigirem-se mutuamente, mas sem se separarem. Em sua segunda Carta (3,15-16), Pedro confessa ter encontrado passagens difíceis nas epístolas de Paulo. Como vemos, foi sob o signo da unidade feita da união de diversidades que a Igreja ganhou forma. Sem nenhum traço de monolitismo. A basílica de São Pedro, em Roma, de fato, está dentro da cidade, mas a de São Paulo está «fora dos muros».

Dentro dos muros e fora dos muros
Em Gálatas 2,7, Paulo diz que “os que eram tidos por notáveis (os responsáveis pela Igreja de Jerusalém) viram que a mim fora confiado o Evangelho dos incircuncisos, como a Pedro o dos circuncisos…”. Seria preciso associar esta afirmação de Paulo ao fato de estar a Basílica de São Pedro “dentro dos muros” de Roma, no Vaticano, enquanto a Basílica de São Paulo está “fora dos muros”? Reconheçamos haver na Igreja duas coordenadas, sendo ambas necessárias ao traçado de sua curva. De um lado, o cuidado em proteger “o depósito da fé”; de outro, a mobilidade, a missão junto a outras culturas, a outros modos de pensar e de viver. Não sejamos intransigentes: o Papa é também ecumênico e missionário, e os “enviados” não estão prontos para passarem adiante a fé herdada dos apóstolos. Pedro e Paulo devem conjugar seus esforços, mesmo se às vezes com choques. Atos15 reporta as primeiras controvérsias a este respeito, e Gálatas 2,11-14 relata um acerto mais enérgico entre Pedro e Paulo. Mas as tempestades são sempre apaziguadas e a calma volta. Não nos surpreendamos, pois, ao ficarmos sabendo de enfrentamentos deste tipo nos dias de hoje. As Escrituras relatam tais fatos para nos advertir de que são inevitáveis e que, a cada vez, encontram-se eles na origem de um aprofundamento da fé.

Um só fundamento, o Cristo
“Eu sou de Paulo (…), eu sou de Cefas (Pedro)… eu (Paulo) sou de Cristo” (1 Cor 1,12). Sempre a referência a Cristo é que conduz à Paz. Em Gálatas 2,15-21, depois de ter relatado sua altercação com Pedro, Paulo lança-se em longa explicação sobre a salvação somente pela fé. Assim, tomando a ilusão da salvação pelas obras segundo a Lei, Paulo ‘desjudaíza’ a aproximação com Deus: daí em diante, já se pode alcançar o que o judaísmo anuncia e prepara, sem ter de submeter-se às suas tradições. O que, sem dúvida, vale também para as nossas próprias tradições… De repente, revela-se o essencial: Deus vem a nós e nós vamos a Deus por meio de um só: Jesus Cristo. Veio até nós pelos judeus, mas Ele é o Verbo em que tudo foi criado e é a vida de tudo o que vive. Vida à prova da morte: a fé revela-se fé em Cristo ressuscitado. Paulo, em 1 Cor 1,13-14, pergunta: “Fostes batizados em nome de Paulo?” Nem em nome de Paulo nem de Pedro: Cristo ultrapassa todos os nossos particularismos, todos os que têm a missão de anunciá-lo. Pedro e Paulo (e os outros) podem ser os fundadores da Igreja, mas não o seu fundamento. Nisto, Pedro e Paulo estão de acordo: uma só é a Pedra angular, o Cristo (1 Cor 3,11 e 1 Pedro 2,4-7)

Homens frágeis
É notável que as Escrituras não nos apresentem os fundadores da Igreja como pessoas perfeitas, sem obscuridades nem fragilidades. Logo após a profissão de fé de Pedro – que, conforme o relato do evangelho, Jesus atribuiu não à hereditariedade de «Simão filho de Jonas», mas à origem absoluta de tudo o que existe -, vemos este que acaba de ser qualificado como pedra fundamental do edifício da Igreja ser tratado como Satã, o adversário, habitado por uma voz que não vem de Deus. Uma pedra de tropeço no caminho de Cristo até Jerusalém e a Paixão (passagem omitida em nossa leitura). Na hora decisiva, Pedro renegará Cristo que, conforme o evangelho da vigília, vai fazê-lo compensar de alguma forma sua tríplice negação por meio de uma tríplice confissão de amor. Três, uma das cifras do incalculável. Já Paulo não se poupou nem um pouco: em 2 Coríntios 12,7-10, confessa ser atormentado por um «aguilhão na carne», uma tentação da qual, aliás, é impossível determinar a natureza. Em Romanos 7,14-24, declara-se, assim como todo homem, ser habitado pela «lei do pecado». O conjunto das Escrituras inclui o pecado, a imperfeição do homem, nos desdobramentos do plano da salvação, do triunfo de Deus sobre o nosso mal. Não vamos, pois, exigir dos que nos transmitem o Evangelho e que administram a Igreja uma perfeição de que nós mesmos não somos capazes. O mal que há em nós é assumido e usado por Deus para fazer advir o bem.

Figuras exemplares
Esta utilização do que é mau para produzir o que é bom foi justamente o que se deu na Paixão de Cristo. O paroxismo da perversidade provoca um superparoxismo do amor. Isto que se passa na Páscoa de Jesus reproduz-se em nossas existências pessoais e também na história da Igreja. Somos disso os beneficiários e, a partir daí, temos de alimentar a ambição de nos tornarmos seus imitadores. Fazer surgir no mundo um acréscimo de amor a partir do mal que possamos fazer e do qual possamos eventualmente ser vítimas, é este o «programa» da ética cristã. Graças a Deus, Pedro e Paulo, fundadores da Igreja, estão aí para nos mostrar que isto é possível. Pecadores, ou seja, produtores do mal e beneficiários do perdão de Deus, mártires que, assim como Jesus, sofreram em seu corpo a perversidade dos homens e que, no perdão que lhes concederam, aceitaram dar a vida, traçam-nos o caminho a seguir. Felizmente, não foram perfeitos, senão o seu exemplo poderia nos desencorajar. A perfeição está no fim de uma longa caminhada, é um dom que nos está prometido, não um bem já possuído. Enfim, escolher a perfeição poderia ser exatamente deixar de nos preocuparmos conosco e passarmos a nos ocupar com os outros, «olhar para fora». Desta forma, a Boa Nova do primado do amor pode ser anunciada, porque vivida primeiro em Jerusalém (Pedro) e, depois, até nas extremidades do mundo (Paulo).
Marcel Domergue

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