A família, como vai?

Esta interrogação, “A família, como vai?”, tem uma pertinência social que perpassa a história de mais de dois mil anos da Igreja Católica, e sua importância permanece ainda hoje na sociedade contemporânea. Afinal, o bem da família é decisivo para o futuro do mundo e da Igreja. Questão que afeta e aflige, exigindo respostas assertivas, sem absolutamente admitir equívocos ou desfigurações perigosas que possam impactar a realidade do lar, com suas dimensões humana, afetiva e espiritual. A família tem força e propriedades educativas, mesmo com limites advindos da condição humana, para alavancar, sustentar e impulsionar vidas. Por isso, prioritário é investir na família.

“A família, como vai?”. Uma interrogação interpelante já em 1994, 25 anos atrás, inspirou ações da Campanha da Fraternidade, envolvendo a Igreja em todo o Brasil. A Igreja sabe que a família é uma comunidade natural na qual se experimenta a sociabilidade humana de modo a contribuir para o bem da sociedade. Sem famílias fortes na comunhão e estáveis no compromisso, os povos se debilitam. Incontestável que a família é prioridade em relação à sociedade e ao Estado. Por isso, não pode ser desconsiderada. Constitui, assim, doutrina pétrea para a Igreja a valorização da instituição familiar, conforme ensina o largo e luminoso horizonte da Palavra de Deus. Compreende-se porque a antropologia cristã considera que não é bom o homem estar só. Os textos que narram a criação do homem focalizam sobre o desígnio de Deus: o casal constitui a primeira forma de comunhão de pessoas, comunhão assentada sobre Adão e Eva, firmando a direção da ajustada compreensão.

Na família se aprende a conhecer o amor e a fidelidade a Deus, a necessidade de corresponder-lhe. Convence, pois, o quanto é importante responder a esta pergunta desafiadora – a família como vai? – para compor e recompor a competência fundamental desta experiência, a ser marcada pelo humanismo, fé e espiritualidade. O desafio é que, hoje, a mudança antropológica-cultural influencia todos os aspectos da vida e requer uma abordagem que seja contemporânea, diversificada, não podendo, no entanto, negociar valores, princípios e identidades intocáveis, sob pena de não se alcançar patamares que configurem a família na perspectiva educativa e sustentadora para a sociedade.  Não pode a Igreja desincumbir-se, portanto, de anunciar o Evangelho da Família, com voz forte e clara na complexidade da cultura contemporânea, ante os relativismos que a ameaçam.

É necessário, pois, novos caminhos pastorais e de conscientização, preservando, sempre, aquilo que é inegociável. Por isso, é tarefa a elaboração de diretrizes e indicação de práticas, considerando, fielmente, a doutrina da Igreja em diálogo com as necessidades e desafios locais. O Papa Francisco lembra que, à luz da parábola do Semeador, a missão da Igreja consiste em cooperar na sementeira, o resto é obra de Deus. Os casais esperam e precisam que a Igreja lhes ofereça motivações para uma aposta corajosa em um amor forte, sólido, duradouro – capaz de enfrentar imprevistos, adversidades. A Igreja é desafiada a acompanhar as famílias em suas dificuldades. A Igreja é desafiada a uma conversão missionária por não se contentar com um anúncio puramente teórico e desligado da realidade das pessoas.

O Evangelho da Família precisa ser apresentado como resposta profunda às interrogações e necessidades da humanidade. É preciso propor valores para que a família alcance a sua dignidade e plena realização na reciprocidade, na comunhão e na fecundidade. A Igreja é “família de famílias”, enriquecida pela vida de cada Igreja que está no lar de cada um. Assim, o sacramento matrimonial pode fecundar o caminho da sociedade. É, por isso, um dom precioso, sobretudo, para o momento atual. A Igreja é um bem para a família e a família é um bem para a Igreja. Permanece o enorme desafio de viver e ser família na complexidade cultural da contemporaneidade. Tem, pois, pertinência a interrogação: “a família como vai?”, abrindo muitos debates, indicando os desafios e exigências da indispensável retomada de valores, a promoção de experiências com força educativa humanística e a rica vivência da fé, busca da luz advinda do Evangelho de Jesus Cristo. É a luz única que pode iluminar a compreensão com força inigualável. A interrogação é dirigida a cada família, à Igreja e também à sociedade.

Instituições não subsistirão na direção certa e perderão rumo em seus percursos se não se dedicarem a investir qualificadamente na família. Para fazer da família prioridade, todos têm que se deixar interrogar e responder: “como vai a família?”. Esse investimento urgente, com entendimentos largos e lúcidos, poderá impulsionar com mais velocidade a busca que se está fazendo. Responder à interrogação, superando indiferenças e relativismos, é o caminho para a necessária abertura de um novo ciclo. Do contrário, se multiplicarão os fracassos. Pergunte e responda: sua família, como vai?

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

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