8 de abril de 2018: 2º Domingo de Páscoa-Ano B

O espírito da Páscoa. A presença do Ressuscitado no meio de seus discípulos fez com que estes passassem do clima de medo e dúvidas ao de alegria e paz interior. O Ressuscitado não veio sozinho: insuflou-lhes seu Espírito, que iria acompanhá-los em sua missão e em sua vida comunitária. Portador da vida de Deus, Cristo agora nos diz: «A paz esteja convosco». (Hoje é o Domingo da Misericórdia Divina: desde 2001, a pedido de João Paulo II, o primeiro domingo depois da Páscoa é consagrado a meditar-se o mistério da Divina Misericórdia.)

Textos deste Domingo

1ª leitura: “Um só coração e uma só alma” (Atos 4,32-35).

Salmo: Sl. 117(118) – R/ Dai graças ao Senhor, porque ele é bom; “eterna é a sua misericórdia!”

2ª leitura: “Todo o que nasceu de Deus vence o mundo” (1 João 5,1-6).

Evangelho: “Oito dias depois, (…) estando fechadas as portas, Jesus entrou” (João 20,19-31).

Deus conosco
A Ressurreição de Cristo é uma condenação: é a condenação da crueldade humana e da morte. Deus não está de acordo com a Cruz, não está de acordo com as nossas cruzes. Por que não as impede? Porque confiou o universo à liberdade dos homens. Por que quis que Cristo passasse por isso? Porque, n’Ele e por Ele, quis assumir tudo o que provocamos e tudo o que nos afeta. Levantamos cruzes por toda parte no mundo; por todo lado, homens usam e consomem outros homens e mulheres. Mas Deus não deixa as nossas vítimas entregues à sua solidão: vem juntá-las e recapitulá-las. Daí a fórmula que aparece tantas vezes nos discursos de Pedro: «Este Jesus a quem vós crucificastes [«vós», não Deus], Deus o ressuscitou» (Atos 2,23-24; 2,36; 4,10; 5,30). Tomando ao pé da letra imagens e símbolos das Escrituras, inventou-se a teoria da satisfação da justiça divina, do sacrifício expiatório, do pagamento da dívida. Para resumir, inventamos um «Deus» que nos pede para perdoar, mas ele mesmo não perdoa, pois exige ser pago: ao preço de sangue. Mas este «Deus» é um ídolo sanguinário que não existe. O Deus verdadeiro veio encontrar-nos ali onde estamos metidos, para com Ele sairmos daí. Por amor. A Ressurreição de Cristo está prenhe da nossa própria ressurreição, que é passagem à vida inalterável de Deus. Ressurreição das vítimas e, também, por fim, ressurreição dos carrascos; estes que estavam mortos para a sua humanidade, pelos atos destrutivos que os tornaram inconciliáveis com a imagem do Amor, a única imagem segundo a qual podem ser criados.

“Eu vos envio”
Eis, pois, o Cristo, portador da vida de Deus, que agora vem nos declarar a paz: «A paz esteja convosco» aparece três vezes no evangelho. Paz finalmente encontrada, entre Deus e os homens. Paz que é fruto da nossa semelhança com Ele, e que, sendo bem entendida, implica na paz entre nós. Enquanto pretendemos nos julgar, condenar ou punir, estamos ainda a caminho desta paz, que hoje em Cristo se realiza e que por Ele nos é dada. Resta-nos tão somente assumi-la, fazê-la nossa, ou seja, acolher o Espírito de Cristo que nos abrirá aos outros, próximos ou distantes. Esta unidade tem como modelo humano a relação entre o homem e a mulher e, para além deste, o modelo divino da Trindade. Pois é para que cheguemos a esta unidade que os apóstolos são enviados: «Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio», diz Jesus. Daí em diante, a sua presença e sua ação vão passar por seus discípulos, que são os portadores do seu Espírito. Já em Mateus 10,11-14 e Lucas 10,3-7, os discípulos tinham sido enviados para propor a paz aos que quisessem aceitá-la de bom grado. Havia ali uma antecipação profética da situação pós-pascal. Assim é que agora recebemos em plena luz a verdade que se buscava na humanidade desde o começo. Sublinhemos, uma vez mais, que nada pode ser feito sem a aquiescência da nossa liberdade: não podemos ser criados filhos de Deus apesar de nós mesmos; e não podemos ser filhos sem aceitarmos ser irmãos. Irmãos de quem? De todos, mulheres e homens, de todo Filho do homem.

“Pôs-se no meio deles”
Não vamos crer que Jesus ressuscitado passasse através das portas fechadas: não precisava disto para chegar até ali. Ele, de fato, não é mais localizável. Como dirá Paulo, o seu corpo agora é «espiritual» (1 Coríntios 15,44). A sua humanidade assumiu as características do Verbo criador. Da mesma forma que a Palavra fundadora habita todas as coisas saídas dela, assim também Jesus encontra-se agora interior a tudo o que existe. Ou, se quisermos, é o suporte de todo ser, assim como a raiz é o suporte da planta. As portas estavam fechadas! Eis que, portanto, Ele torna a sua presença visível, mas para nós, hoje, somente pela fé ela é perceptível. Esta presença espiritual não é abstrata, pois ganha corpo, o nosso corpo. Permanece portadora da sua história: Jesus ressuscitado guarda as suas feridas, as feridas que Tomé exige tocar, e que, aliás, ao que parece, não o fará. Jesus é, portanto, o mesmo Jesus de antes; mas de outro modo. O evangelho de João termina acenando para a entrada neste tempo em que é preciso crer sem ver, que é o nosso tempo. O capítulo 21, que segue à nossa leitura, é, com efeito, uma peça acrescentada, o que, aliás, não diminui o seu interesse. A recusa ao crer sem ver, manifestada por Tomé, convida-nos à indulgência para conosco, a respeito das nossas próprias dificuldades de crer, conduzindo a nossa atenção para o fato de que a fé só se torna plenamente ela mesma ao preço de um caminho a percorrer. Sendo preciso, aliás, note-se, a intervenção do próprio Cristo.
Marcel Domergue, jesuíta

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