23 de setembro de 2018: 25º Domingo do Tempo Comum – Ano B

Todo sofrimento tem sua parte de mistério. Mas o sofrimento do justo que é perseguido e, mais ainda, o do Filho do homem, levantam uma multidão de questões. O justo da primeira leitura, aquele do salmo e o do evangelho tem toda a certeza de que Deus o livrará. De qualquer modo, a lógica de Deus não é a lógica dos homens: os primeiros serão os últimos. E quem acolhe os pequeninos, os mais carentes, é ao próprio Deus que acolhe.

Textos deste Domingo

1ª leitura: «Vamos condená-lo à morte vergonhosa … alguém virá em seu socorro» (Sabedoria 2,12.17-20)

Salmo: Sl. 53(54) – R/ É o Senhor quem sustenta minha vida!

2ª leitura: «O fruto da justiça é semeado na paz, para aqueles que promovem a paz» (Tiago 3,16- 4,3)

Evangelho: «Se alguém quiser ser o primeiro, que seja… aquele que serve a todos» (Marcos 9,30-37)

O justo e o mundo
Lembremos que Hitler, interrogado sobre o motivo de seu ódio dos judeus, teria respondido: “Eles introduziram a moral no mundo.” Mal sabia que, com estas palavras, resumia a nossa 1ª leitura (com um pequeno esforço, podemos abrir a nossa Bíblia e ler a passagem toda da qual foi extraída esta leitura, a partir do versículo 10). O “justo” em questão, este que “introduz a moral no mundo”, se põe em contradição com os modos de pensar e de agir de um grande número de pessoas. E, portanto, suscita o ódio ou, quando menos, o desprezo; torna-se “sinal de contradição”. Mas de que moral se trata? Desta, que é oposta à ideia de que a força é que cria o direito, e de que o fraco deva ser suprimido, porque inútil (versículo 11). Trata-se da moral que nos faz todos iguais, porque somos todos irmãos e temos o mesmo Pai, como diz Mateus 23,8-11. Até mesmo o pervertido, de algum modo, é filho de Deus e, por isso, não estamos habilitados a condená-lo. Nossas sociedades, no entanto, não estão construídas conforme esta lógica e nem funcionam de acordo com esta perspectiva da fé. Os “justos” serão assim eliminados, ou marginalizados nos confins de uma moral qualificada como individual, para que fique bem entendido que ela não dá nenhum valor ao coletivo. De tal forma que a alternativa à visão do “justo” é um mundo de predadores, um mundo glacial e impiedoso, mesmo que os justos laboriosamente se esfalfem, buscando reparar os danos provocados pelo funcionamento de um sistema batizado como “ordem”.

A inveja-ciúme
A 2ª leitura permite-nos penetrar ainda mais no espírito desta “moral”. Tiago fala de inveja e rivalidade. Vê aí a raiz de todo o mal que envenena as relações entre as pessoas. Isto combina muito bem com as análises de René Girard sobre o “mimetismo de apropriação”: o simples fato de vermos alguém possuir um objeto faz nascer em nós o desejo de igualmente dispormos dele. E se os objetos assim desejados são únicos ou raros, então temos a guerra. Exatamente o que diz Tiago, nos versículos 1 e 2 do capítulo 4. Paul Beauchamp , por seu lado, falando da análise de Gênesis 3, vê na inveja-ciúme a primeira manifestação do pecado. A inveja-ciúme, diz ele, consiste em entristecermo-nos por causa do bem (qualquer que seja a natureza deste bem) que vemos com o outro; “tristeza” que pode chegar até ao homicídio (a história de Caim e Abel em Gênesis 4). O contrário da inveja é o louvor, que consiste em nos alegrarmos com o bem que encontramos no outro. Mas, a bem da verdade, há ainda uma raiz escondida por debaixo da inveja e da cobiça: a desconfiança. E aqui estamos deixando o domínio da moral, por mais alto que ele seja, para entrarmos no da fé. Não acreditando -ou não o bastante- no amor que nos faz existir, vamos atrás de garantias; temos medo de não termos o bastante, de não valermos o bastante, de não sermos o bastante. Então, precipitadamente, nos colocamos em busca de provar nosso valor; e, portanto, a nossa superioridade. “Somos os mais fortes e somos os melhores”, dizia um chefe de Estado…

A criança desprovida…
Passemos ao evangelho. Vemos aí os discípulos atormentados pelo demônio da ambição: quem é o maior? Quem o melhor? O “primeiro”? Um contraste impressionante! Jesus mal acabara de anunciar-lhes, por duas vezes, que seria entregue nas mãos dos homens, que iria fazer-se o “último e o servidor de todos”… Marcos tem razão ao notar que eles não haviam compreendido estas palavras. Mas não vamos lhes jogar pedras, nós que cremos entendê-las. Não é nada fácil compreender que a verdade fundamental do homem, aquilo que o faz humano, não é tomar, mas dar; o dar-se. Ou, em uma palavra, compreender que Deus é amor e que, por consequência, é “servidor”. Servidor da nossa vida, do que nos faz viver, e não das ambições e cobiças que nos fazem morrer (ver a má oração de que nos fala a 2ª leitura). Uma vez que as palavras permaneceram incompreensíveis aos discípulos, Jesus recorreu então a uma mise-en-cène: o episódio da criança. Resistimos à invasão sentimental que o personagem da criança, e uma criança abraçada, pode nos provocar. A criança, aqui, é de fato a figura do ser humano que é privado do poder e da força, que tem necessidade dos outros para sobreviver, e que, portanto, está longe de ser “o maior”. Pois ei-la aí, no meio dos discípulos, no centro mesmo da cena. Ela, que não contava para nada, torna-se a mais importante. Quem, em nome de Cristo, acolhe o que é o último, o mais fraco, aquele que não provoca nem inveja nem ciúme, é ao próprio Deus que acolhe, este Deus que Se entregou aos homens, fazendo-se o último e o servidor de todos.
Marcel Domergue, jesuíta

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