20 de novembro: celebração da Resistência Negra

O espírito livre de Zumbi dos Palmares é imagem de Deus

O Espírito do Senhor está sobre mim. (Lucas, 4,18).

Desde os primórdios, o homem é a imagem e semelhança de Deus. (Gn1, 26). A noção dessa afirmação da liberdade e da igualdade dos Homens nasce de dentro de Deus através do hálito que sai da boca de Deus para ser introduzido na narina do homem. (GN 2, 7). É dessa possibilidade direta que o Espírito livre de Zumbi dos Palmares emerge com força para lutar pelo seu povo.

Não há de se admirar, contudo, a história do povo negro e a figura de Zumbi, durante longo tempo, ficou no anonimato, por introduzir que o povo negro era supersticioso e tinha pacto com o demônio. Nesse aspecto, o Estado Brasileiro não interessava intervir nem reconhecer a pessoa dos heróis negros, estendendo a exclusão a todas as pessoas de pele negra, e por isso, os tornavam seres invisíveis neste país que ajudaram e ajudam a construir com suas mãos fortes e corpos escravizados.

É dessas visões direta e de outras derivadas que o povo negro se encontra em um lugar muito incômodo, porque a estrutura de poder oprime e extirpa o direito de fala e ação. Sobre o agir desta forma, Spivak argumenta: “é reproduzir a estrutura de poder e opressão, mantendo o subalterno silenciado, sem lhe oferecer uma posição, um espaço de onde possa falar e, principalmente, no que possa ser ouvido”. (2010, pg. 14). Sem dúvida, Spivak nos aleta para o perigo de deixar o outro falar por nós que somos afrodescendentes. Quando a elite burguesa fala por mim ou por você, não têm nenhum compromisso conosco, não assume as nossas causas, retira direitos do nosso povo, desvaloriza a nossa cultura, discrimina as mulheres e crianças, sem dizer os jovens e os idosos. Não temos igual oportunidade. Isso significa que o essencial aqui é ter consciência de sua negritude, ver com clareza o seu Povo, assumir junto com a população negra as lutas e entender, atrevidamente, o que é ser negro no Brasil Cristão.

Para Aimé Césaire, a maldição mais comum neste assunto é ser a vítima de boa fé de uma hipocrisia coletiva, hábil em abordar mal os problemas para legitimar melhor as odiosas soluções que se lhes oferecem. (2010, pg. 16-17). Reconhecer que a evangelização nem sempre se aproximou dos sofrimentos da população negra na colonização. Mas há também de compreender que a igreja ainda hoje também tem dificuldade e lacunas em assumir a questão racial.

Na igreja do Brasil há 20 bispos negros que, assumidamente, participam da pastoral afro-brasileira, outros preferem a neutralidade neste assunto racial. Porque a Europa para esses é o melhor lugar e acreditam que no país somos “Varias raças um só povo”, título da campanha da fraternidade do Rio de Janeiro em 1988. Enquanto a CNBB assumia a questão do negro na mesma campanha cujo título era: “Ouvi o clamor deste povo”. Neste sentido, Dom Helder Câmara afirma de maneira categórica que a Igreja precisa assumir a causa dos negros em sua totalidade e não na parcialidade como aconteceu na campanha de 1988.
Por isto, Dom Helder faz um clamor pelos pobres invocando a Nossa Senhora Aparecida dizendo:

Mariama, Nossa Senhora, mãe de Cristo e Mãe dos homens! Mariama, Mãe dos homens de todas as raças, de todas as cores, de todos os cantos da Terra. Pede ao teu filho que esta festa não termine aqui, a marcha final vai ser linda de viver.
– Mas é importante, Mariama, que a Igreja de teu Filho não fique em palavras, não fique em aplausos. O importante é que a CNBB, a Conferência dos Bispos, embarque de cheio na causa dos negros. Como entrou de cheio na pastoral da terra e na pastoral dos índios.
– Não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo de hoje sem ligar ao que disserem. Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão, que é comunismo. É Evangelho de Cristo, Mariama.
– Mariama, Mãe querida, problema de negro acaba se ligando com todos os grandes problemas humanos. Com todos os absurdos contra a humanidade, com todas as injustiças e opressões. Mariama, que se acabe, mas se acabe mesmo a maldita fabricação de armas.
– O mundo precisa fabricar é Paz. Basta de injustiça! De uns sem saber o que fazer com tanta terra e milhões sem um palmo de terra onde morar. Basta de alguns tendo de vomitar para poder comer mais e cinquenta milhões morrendo de fome num ano só. Basta de uns com empresas se derramando pelo mundo todo e milhões sem um canto onde ganhar o pão de cada dia.
– Mariama, Nossa Senhora, Mãe querida, nem precisa ir tão longe, como no teu hino. Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias e os pobres de mãos cheias. Nem pobre nem rico! Nada de escravo de hoje ser senhor de escravos amanhã. Basta de escravos! Um mundo sem senhores e sem escravos. Um mundo de irmãos. De irmãos não só de nome e de mentira. De irmãos de verdade, Mariama. (Dom Helder Câmara).

Contudo, as reivindicações do povo negro na sociedade civil e na igreja continuam, porque queremos um Brasil de igual oportunidade para todos, negros, brancos, imigrantes, minorias e ciganos. Porque este país é negro. O que falta é a consciência ética do cuidado do outro. Em virtude disso, o caráter da pastoral afro brasileira é despertar o povo negro que precisamos nos unir para conquista de políticas públicas, mas também oportunidade nas intuições que fazemos parte.

Entendemos que 20 de novembro nos lembra a resistência negra e que o Espirito livre de Zumbi pode engendrar numa perspectiva de construir um país livre da escravidão, ao fortalecer o quilombo dos Palmares. E esta comunidade quilombola assume com coragem até o fim as consequências de reivindicar para o seu povo o direito de escolher a liberdade. Neste caso, o negro é um homem porque a esperança é sempre permitida. Ainda neste contexto é preciso fortalecer a unidade dos movimentos Negros, que adquirindo consciência determine um dia libertar-se da rota pesada do preconceito: do braço covarde que assassina os jovens negros nas periferias, das mulheres negras violentadas, dos idosos negros solitários e esquecidos nos leitos dos hospitais, das instituições que não geram oportunidade aos homens e mulheres negras em seu espaço de funcionamento.

Por fim, temos de enfrentar ainda neste século os movimentos autoritários e sombrios: de intolerância religiosa, de políticas retrógradas, (que acelera o empobrecimento da população negra e alienando o mesmo em seu processo de libertação) e de exclusão neste imenso mundo de consumo que é o lugar que se diz e produz, temos de alimentar nossas lutas, resistências e marcando o tempo e o lugar, onde acreditamos que as esperanças se encontram e se abraçaram.

Padre Jotaci Celiliano Conceição de Oliveira
Pároco da Paróquia São João Bosco – Betim

*Fonte: Arquidiocese BH

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