12 de agosto de 2018: 19º Domingo do Tempo Comum-Ano B

O pão vivo descido do céu. Mesmo os maiores profetas, como Elias, conheceram a noite da fé e se interrogaram a respeito do sentido da sua missão. Deus, porém, não desiste nunca e sempre provê sustento e conforto aos seus servidores. No evangelho de hoje, em Jesus, Ele oferece a todos o pão que faz viver eternamente, para além de todas as provações.

Textos deste Domingo

1ª leitura: «Com a força desse alimento, andou… até chegar ao Horeb, o monte de Deus» (1 Reis 19,4-8).

Salmo: Sl. 33(34) – R/ Provai e vede quão suave é o Senhor!

2ª leitura: «Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo» (Efésios 4,30-5,2).

Evangelho: «Eu sou o pão vivo descido do céu» (João 6,41,51)

O contexto deste evangelho
O evangelho de hoje começa já no meio do primeiro discurso de Jesus, sobre o pão da vida. Após a multiplicação dos pães, ocorre, no versículo 25, um diálogo muito tenso entre Jesus e os beneficiários do sinal dos pães (v. 25-34). Haviam estes de fato, ficado muito sensibilizados pela operação de poder, pela grande proeza, mas não buscaram o seu significado. Quando Jesus anunciou-lhes um pão de outra natureza, disseram-lhe: «Senhor, dá-nos sempre deste pão.» Esta passagem constitui de alguma forma uma introdução, à qual corresponderá a conclusão constante nos versículos 60-71: «Esta palavra é dura! Quem pode escutá-la? (etc.)». Ao pedido da multidão (versículo 34), Jesus respondeu com dois discursos sucessivos, ambos começando por «Eu sou o pão da vida» (versículos 35 e 48) e terminando com o anúncio da posse da vida eterna (versículos 47 e 58). No centro de cada um dos discursos, faz-se menção à recusa dos ouvintes (41 e 52). E, em seguida, a conclusão, que foi chamada muitas vezes de «a crise (separação, divisão) de Cafarnaum». Os ouvintes de Jesus, logo após este duplo discurso, vão com efeito se separar. Um pequeno grupo, somente, continuará a segui-lo. Este é o quadro, o contexto, da passagem que lemos hoje, que, aliás, invade o segundo discurso. Por que dois discursos? Porque o primeiro estabelece uma semelhança entre o pão e a palavra, entre o comer e o crer, enquanto o segundo, expressa o objeto desta fé: o dom da carne e do sangue.

Buscando o pleno sentido do sinal
Jesus alimentou a multidão. Esta, vendo satisfeita a sua fome, não buscou nada mais além. Tal como os nove leprosos de Lucas 17 que, satisfeitos por terem recuperado a saúde, não se questionaram sobre quem os havia curado nem sequer voltaram para “dar graças a Deus”. Na verdade, tudo é sinal (comentário precedente), mas é preciso que voltemos do “significante” ao “significado”: se vemos o pão e o comemos, devemos compreender que “Deus está aí e faz-se a Si mesmo como nosso alimento”. Jesus é o sinal por excelência: nele vemos um homem, “o filho de José; sendo bem conhecidos seu pai e sua mãe”. E, a partir de suas palavras e de seus atos, devemos concluir que o próprio Pai o enviou e que ele é o pão vivo que vem de Deus. Mas será que basta reconhecer isto, para chegarmos até o fim do que significa ser este pão-sinal? Vendo em Jesus aquele que vem do Pai, estamos por certo respondendo à questão “de onde ele vem?” É preciso ainda descobrir e aceitar o “para onde ele vai”. Por isso, Jesus responde ao pedido “dá-nos sempre este pão” com os dois discursos de idêntica estrutura, começando ambos, como dissemos, por “eu sou o pão da vida” (v. 35 e 48) e terminando com “a vida eterna” (v. 47 e 58). E, no meio de cada um deles (v. 41 e 52), a recusa dos ouvintes. Este corte que a Liturgia faz (iniciando a leitura de hoje no meio do primeiro discurso) não respeitou estas articulações, mas propõe-nos o essencial do primeiro discurso.

Nutrir-se da Palavra
As palavras chave que marcam este primeiro discurso são, por ordem; “vir a mim”, tomada como equivalente a “crer”, na dupla “ver-crer” (ver Jesus já nos leva a ter fé nele); a vontade do Pai, de ninguém se perder, mas que todos possuam a vida eterna, pela ressurreição. No centro, temos a questão da identidade: quem é Jesus? (que noutro lugar vem formulada como: de onde ele vem?) Enfim, a partir do versículo 45, aparece o tema da escuta: ser instruídos por Deus, ouvir o Pai, receber o seu ensinamento. Este primeiro discurso, portanto, é todo ele comandado pela necessidade de acolher, na fé e pela fé, o que vem do alto, o que vem do Pai. Este acolhimento não é pura passividade, mesmo se, como vimos, não é com nosso trabalho que recebemos este dom: temos sim de nos movermos, temos de “ir até…”. Movimento, no entanto, que consiste em ceder a uma atração que vem de Deus: e este “ceder” não pode se dar sem o nosso consentimento. Mas o Cristo nos foi dado (v. 32) e nós fomos dados ao Cristo (v. 32, 37 e 39). Deus nos criou por seu Verbo, por sua Palavra; nos reunirmos livremente a este Verbo que nos fez ser é entrar na vida que Ele nos deu e que é eterna, uma vez que se trata de sua própria vida. Jesus é esta palavra que sai da boca de Deus e que é o verdadeiro alimento. Ir pra Jesus, escutá-lo e segui-lo, este é o caminho que conduz à vida inalterável de Deus.

A criação, Deus, Jesus e o homem, todos revelados
Tudo o que acaba de ser dito pode parecer metafórico demais. Podemos de fato ver este homem, Jesus, como semelhante ao pão? O que pensar da expressão “descer do céu”? Daí a questão: o que isto exatamente quer dizer? Na minha opinião, este evangelho comporta uma tríplice revelação. Primeiro, sobre as coisas criadas: elas trazem a marca de Deus, a sua imagem; elas nos falam do amor que as fez ser. Há, assim, algo divino no pão de nossas mesas (ver Santo Irineu) e há em Deus “alguma coisa” que torna possível o pão e que o pão revela: que Deus é o verdadeiro alimento do homem. Assim, todas as coisas criadas nos remetem a um mais além que é Deus. Tudo nos fala de Deus, tudo é Palavra. Revelação também sobre Jesus, este homem de Nazaré “de quem conhecemos o pai e a mãe”. Tudo o que existe n’Ele foi criado; Paulo dirá que Ele recapitula em si mesmo todos os seres do céu e da terra. Ele é portanto a presença visível deste Deus-alimento que se dá a nós para nos fazer existir. Revelação, além disso, sobre nós mesmos: a nossa vida “terrestre”, alimentada pelo pão que vem da criação, encontra o seu acabamento perfeito e a sua verdade plena na vida mesma de Deus, “vida eterna”. Então, como alimentar desde já esta vida? Consumindo a palavra de Cristo, esta Palavra que vem do Pai, “indo para Ele”, e deixando-nos “instruir por Deus”. E fazendo esta Palavra, que é o verdadeiro alimento, passar para a nossa carne, isto é, para todas as nossas maneiras de viver.
Marcel Domergue, jesuíta

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